ARTE: LINGUAGEM DA ALMA

 

Ligia Diniz


            INTRODUÇÃO

 “A alma é o ponto de partida de todas as experiências humanas, e todos os conhecimentos que adquirimos acabam por levar a ela. A alma é o começo e o fim de qualquer conhecimento” (Jung OC V. VIII/2: 61).

A arte é a linguagem da alma. Jung revela um universo repleto de mitos, símbolos, sonhos, religiosidade, arte e alquimia.  Compreende o homem na sua totalidade e traz uma percepção de que a criação está dentro de nós e que, se quisermos conhecer o mundo, devemos mergulhar mais em nós mesmos.
Se o processo analítico visa a “escutar” a alma de outrem, a arte é um veículo que torna essa “escuta” possível. Se visamos a compreender o social, um grupo de pessoas, devemos estar abertos às suas músicas, poemas, pinturas, danças e outras manifestações da alma. Tudo que se faz com arte se faz com alma. Através de expressão artística, realiza-se uma comunicação que está para além das fronteiras, que não precisa estar baseada restritamente no código verbal.
O verbal não transmite todos os conteúdos internos. Muito antes de o homem escrever, desenhava. A arte sempre foi uma função estruturante da consciência. Ao desenhar os bisões na caverna, por exemplo, o homem já vivia a formação de sua consciência. As mãos que marcam as cavernas pré-históricas já podem ser compreendidas como uma vivência de identidade. A arte, portanto, como a compreendemos, tem uma fundamental importância na trajetória humana, auxiliando o homem a estruturar seu “eu”, a lidar com seus medos, dúvidas e perplexidades frente ao desconhecido.

A arte possibilita tornar visível o que é invisível, valendo-se do simbólico. O numinoso pode ser expresso através dela porque, como postula Jung (OC V. VIII/2), o símbolo agrupa significados contrastados, daí a possibilidade de transcender através da arte, atingindo aquilo que a princípio figura como inatingível.
A arteterapia fornece suportes materiais adequados para que a energia psíquica torne visíveis símbolos em criações diversas. Esse processo colabora para a compreensão e resolução de estados objetivos conflitados, favorecendo a estruturação e expansão da personalidade através da criação.
A arteterapia, como um conjunto de técnicas e saberes, facilita este processo. Por arteterapia, entendemos qualquer tratamento psicoterapêutico que utiliza como mediações expressivas a música, a dança, o teatro e representações plásticas (pintura, modelagem, desenho, gravura, máscaras, etc.).
Portanto, a arte utilizada no espaço terapêutico, revela a riqueza inconsciente das pessoas. E, por ser uma linguagem simbólica, se torna um instrumento eficiente para acessar a alma humana.
            Segundo Jung (OC V. VIII/2), a criatividade é um instinto humano. Ao usar a arte no processo de individuação e assim estimulando a criatividade, humaniza-se ainda mais o próprio homem, colocando-o em contato mais estreito com sua própria alma.

            O INCONSCIENTE
Para Jung, a Psique (a personalidade total) abrange dois níveis: consciência e inconsciente.
A consciência aglomera pensamentos, palavras, lembranças, identidade, sensações, gestos, sentimentos, imagens, fantasias. Comum a todo ser humano, ela se refere ao estar desperto e atento, observando e registrando o que acontece no mundo que nos rodeia e dentro de nós. Está diretamente ligada à história do indivíduo (Jung, 1962 :226) e sua função primordial é situar o sujeito no tempo e no espaço, realizando as orientações e adaptações necessárias para possibilitar a relação de troca entre cada um e o meio físico e humano ao seu redor.
Além de abranger todos os conteúdos não-conscientes, o inconsciente existe a priori e é a matriz pré-formadora da própria consciência. Jung afirma que “o inconsciente não é apenas um produto da repressão, mas o solo materno e criador da consciência” (Jung, OC V. XVIII/I, §1156), cujos conteúdos “...não consistem apenas de desejos incompatíveis mas, principalmente, de partes da personalidade até agora pouco desenvolvidas e inconscientes que lutam por uma integração no todo do indivíduo.” (Jung, OC V. XVIII/I, §1156). Presente nas funções instintivas mais importantes, fonte legítima das potencialidades do ser, origem da atividade criativa e artística, ele é nossa essência que nos irmana. Nascemos inconscientes e trazemos muitos conteúdos herdados dos ancestrais.
“...embora uma criança não nasça consciente, sua mente não é tabula rasa; ela vem ao mundo com uma interioridade definida... O cérebro nasce com uma estrutura acabada, funcionará de maneira a inserir-se no mundo de hoje, tendo entretanto a sua história. Foi elaborado ao longo de milhões de anos e representa a história da qual é o resultado. Naturalmente traços de tal história estão presentes como em todo o corpo, e se mergulhamos em direção à estrutura básica da mente, por certo encontraremos traços de uma mente arcaica.” (Jung, OC V. XVIII/I, §84)
Embora os produtos da mente inconsciente sejam ignorados, ela é bem maior que a psique consciente, que se restringe à percepção de poucos dados de cada vez – o resto é inacessível à percepção, como se observássemos através de uma fenda e só víssemos momentos isolados. O inconsciente é imenso e sempre contínuo, enquanto a consciência é um campo restrito de visão momentânea (Jung, OC V. XVIII/I). Jung (Silveira, 1984 : 71) compara a Psique a “um vasto oceano (inconsciente) no qual emerge pequena ilha (consciente)”. O Inconsciente é dinâmico, produz vários conteúdos, reagrupa outros já existentes e trabalha numa relação compensatória e complementar com a consciência.
Jung (OC V. XVIII/I) subdivide o inconsciente em dois níveis: um, o inconsciente pessoal ou psique subjetiva, refere-se aos conteúdos adquiridos durante a vida da pessoa; o outro, inconsciente coletivo ou psique objetiva, aos que estão presentes desde a concepção.
O inconsciente pessoal corresponde a “...uma camada mais ou menos superficial” (Jung, OC V. XVIII/2, §1159), sem um marco divisório muito rígido com o consciente e composto pelos conteúdos esquecidos ou reprimidos pelo indivíduo, deliberada ou involuntariamente, relacionados às experiências vividas; refere-se a comportamentos civilizados ou passíveis de aprendizado.
Já o inconsciente coletivo seria a camada mais profunda da psique, constituída pelos materiais herdados da humanidade, cuja existência não depende de experiências individuais. Aí estariam os traços funcionais comuns a todos os seres humanos, prontos para serem concretizados através das experiências reais.
No nível do inconsciente coletivo encontram-se os instintos e os arquétipos – formas estruturantes comuns a toda espécie humana, padrões de comportamentos coletivos, que se manifestam em motivos mitológicos nas mais diversas culturas e são o resultado do depósito de impressões deixadas por certas vivências fundamentais, repetidas incontavelmente através de milênios: registros de emoções e fantasias suscitadas por fenômenos da natureza; experiências intra-uterinas e as relações iniciais que se estabelecem entre mãe e filho; vivências da imposição do poder do mais forte sobre o mais fraco; vivências da relação de irmandade; encontros com o sexo oposto e relações estabelecidas entre ambos; vivências de situações-limite em que o risco de vida é iminente; situações de aborto, onde algo se inicia, mas não chega ao fim; percepções da temporalidade e das transformações corpóreas vividas em cada momento da vida; entre muitas outras.
Os arquétipos também são compreendidos como disposições inerentes à estrutura do sistema nervoso, que geram representações sempre análogas ou similares, assim como os instintos - as pulsões herdadas. Compreendidos desta forma, são “padrões hereditários de comportamento psíquico”, revestidos de qualidades dinâmicas, tais como autonomia e numinosidade (Jung, OC V. XVIII/2, §116). “O arquétipo é a forma introspectivamente reconhecível da organização psíquica apriorística” (Jung, OC V. XVIII/I, §55).
Por serem estruturas vazias, os arquétipos são fôrmas que ganham formas através da imagem arquetípica e do símbolo que, ao contrário do arquétipo, é acessível à consciência. Os arquétipos em si, porém, são apenas possibilidades de imagem: “(...) uma imagem primordial só pode ser determinada quanto ao seu conteúdo, no caso de tornar-se consciente e, portanto preenchida com o material da experiência consciente” (Jung, OC V. IX/I, §155). Tais imagens variam conforme a época, a etnia e os indivíduos, mas têm sua estrutura preservada, como no caso dos arquétipos do Herói, da Grande Mãe, do Pai, da Criança Divina, do Órfão, dos Irmãos Inimigos, entre tantos outros.
Assim, toda a herança espiritual da evolução da humanidade, concentrada no inconsciente coletivo, renasce na estrutura do cérebro de cada indivíduo. Os padrões arquetípicos esperam o momento de se realizarem na personalidade; são capazes de uma variação infinita e dependente da expressão individual, mas exercem uma fascinação reforçada pela expectativa tradicional ou cultura.
As percepções subliminares, os conteúdos da memória que não precisam estar sempre presentes na consciência e as lembranças reprimidas por nos trazerem evocações dolorosas fazem parte do inconsciente pessoal. Tais conteúdos podem surgir na Consciência a qualquer momento, não tendo emergido anteriormente “...devido à falta de intensidade e de conteúdos amadurecidos o suficiente para tornarem-se conscientes” (Jung, OC V. VII/I, §103). Aí também estão localizados os complexos.
Portadores de uma carga energética substancial, os complexos são feixes de conteúdos afetivos – sentimentos, lembranças, imagens, padrões de comportamento e atitudes pessoais – aglomerados em torno de um núcleo arquetípico que funciona como pólo energético, atraindo cada vez mais conteúdos referentes a ele. O complexo é dotado de energia própria e tende a formar uma pequena personalidade, com uma espécie de corpo e uma fisiologia particular (Jung, OC V. XVIII/I, §149).
Ao deparar-se com o conteúdo complexado, a consciência fica obscurecida, com sua orientação no mundo exterior e sua percepção do tempo e do espaço reduzidas. Isso se deve à autonomia de ação e desenvolvimento do núcleo complexado, que pode tomar a consciência, subordinando o ego; nesse momento, o indivíduo perde sua liberdade de ação e de pensar, pois passa a viver em função do complexo e tende a perceber o mundo a partir do universo complexado, constituindo uma espécie de possessão psíquica. Portanto, embora o complexo não seja negativo em si, seus efeitos podem ser.
A superação do complexo ocorre a partir da intensidade com que ele é vivido e da compreensão de seu papel nos padrões de comportamento e reações emocionais. Assim, a energia complexada pode ser liberada, possibilitando a integração de novos conteúdos à consciência, ampliando-a. Isso se dá quando alcançamos
“...o centro (do complexo) diretamente, de qualquer ponto de uma circunferência, seja a partir de um sonho, do alfabeto cirílico, das meditações sobre uma bola de cristal, de um moinho de orações lamaísticas, de um quadro de pintor moderno ou, até mesmo, de um bate papo ocasional” (Jung, 1964, :28)
Desse modo, o complexo, sendo um nó de energia, possibilita a movimentação da psique e acaba tornando-se um grande aliado do sujeito, impulsionando seu desenvolvimento psíquico. Os complexossão, portanto, verdadeiros motores da psique, que a impelem e vitalizam.
O inconsciente, para Jung, não é apenas reativo: ele também age, prediz, alerta, abre horizontes e elucida, sobretudo por meio de imagens. Contém tanto os resíduos ativos do passado quanto as sementes do futuro – e possui, portanto, uma função prospectiva, que Jung exemplifica referindo-se à sua própria história: “Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou. Tudo o que nele repousa aspira a tornar-se acontecimento e a personalidade, por seu lado, quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade” (Jung, 1962:19).
A produção inconsciente antecipa uma nova fase do desenvolvimento da psique. Quando os sonhos e o fazer artísticos, por exemplo, apontam o rumo seguido pela energia psíquica, anunciam para o consciente o que está por vir; embora a consciência esteja alheia aos fatos, as situações já se encontram em incubação (Jung, OC V. XVIII/1, §472). Esse aspecto prognóstico demonstra que o conhecimento do Inconsciente é anterior à Consciência.
A função prospectiva nos leva a transcender o momento presente e vai criando condições para que se desenvolvam no consciente conteúdos existentes no inconsciente, mas ainda desconhecidos da consciência. Eis aí a base do método de amplificação criado por Jung, que, por meio de associações a partir dos conteúdos emergentes nos sonhos, em fantasias espontâneas ou dirigidas e no fazer artístico, possibilita novas ligações com as vivências gravadas no inconsciente coletivo, sem vínculo direto com a experiência pessoal.

OS SÍMBOLOS E A ARTETERAPIA
Para a psicologia analítica, todo e qualquer objeto pode se revestir de valor simbólico, seja ele natural/concreto ou abstrato. Diferente de um sinal (que encerra em si um significado dado) ou de uma alegoria (uma figuração que pode tomar a forma humana, de um animal, de um vegetal, ou mesmo de um feito heróico, de uma virtude etc.), o símbolo traduz algo que nenhuma palavra pode exprimir.
Jung define o símbolo como o “termo que melhor traduz um fato complexo e ainda não foi claramente apreendido pela consciência” (Jung, OC V. VIII/2, §148). É a chave de um mistério, o único modo de se dizer aquilo que não pode ser apreendido de outra forma; ele jamais é explicado de modo definitivo e deve sempre ser decifrado de novo (Chevalier e Gheerbrant, 1988 :XVI).
O símbolo traz para a consciência que o contempla o sentido oculto de uma situação concreta, possibilitando inúmeras percepções até então desconhecidas, alcançando dimensões que o racional não pode atingir. Por isso mesmo, apresenta diferentes facetas, com inúmeros significados, que vão muito além da sua representação imediata.
O símbolo nasce da própria alma e surge do conflito psíquico inerente a esta. Conjuga, de um lado, o arquétipo, fonte de sua numinosidade e em si mesmo irrepresentável; de outro, apresenta uma imagem concreta, retirada de seu contexto e que, ao revestir e dar forma ao arquétipo, de certo modo também lhe dá existência, diferenciando-o do caos do inconsciente de onde se origina, como que realizando o próprio ato cosmológico da criação. Por fundar-se na gênese da alma humana, o símbolo adquire a capacidade de tocar interiormente o homem e mostra-se carregado de afeto.
É o símbolo que media a relação entre consciência e inconsciente. Estes, para a psicologia analítica, raramente estão de acordo no que se refere a seus conteúdos e tendências. O homem tende a polarizar seu funcionamento psíquico em um dos extremos, acarretando uma unilateralidade que pode ser desvantajosa para o processo psíquico, na medida em que a não integração do oposto exclui justamente o aspecto criativo e as perspectivas de transformação e maior amplitude psicológica. Juntas, porém, as tendências do inconsciente e da consciência constituem a função transcendente – assim chamada porque torna possível a passagem de uma atitude para outra, sem perda do inconsciente.
“A função transcendente aparece como uma das propriedades características dos opostos aproximados. Enquanto estes são mantidos afastados um do outro – evidentemente para evitar conflitos - eles não funcionam e continuam inertes” (Jung, OC V. VIII/2, §189).
Com sua capacidade de síntese, o símbolo permite, portanto, que consciência e Inconsciente realizem a união dos opostos e formem uma totalidade. A construção de pontes entre os opostos dinamiza e mantém a vida psíquica em constante movimento, redistribuindo a libido e canalizando-a para a atividade útil (Jacobi, 1995 : 92).
Vimos que a linguagem prenhe de sentido do símbolo grita para nós que significa mais do que diz; vimos também que podemos indicar o símbolo de imediato, muito embora não sejamos capazes de desvendar plenamente seu significado, de modo que ele permanece um desafio perpétuo para nossos pensamentos e sentimentos. Provavelmente por isso um trabalho simbólico é tão estimulante, nos domina com tanta intensidade e raramente nos propicia um prazer apenas estético (Jung, OC V. XV).
Segundo Jung, (OC V. VIII/2, §171) há pessoas “...que nada vêem ou escutam dentro de si, mas suas mãos são capazes de dar expressão concreta aos conteúdos inconscientes”. O trabalho com canais como as expressões plástica e corporal, a música, a literatura e as artes cênicas, transformam a arte num meio facilitador, que confere uma manifestação visível ao afeto. Não cabe aí um olhar técnico ou estético; apenas se concede livre espaço à fantasia, para que tudo se faça da melhor maneira possível.
No trabalho com técnicas expressivas, a linguagem simbólica pela qual o Inconsciente se expressa emerge através das diferentes técnicas, dando acesso à mente inconsciente do cliente. O processo arteterapêutico, assim como o processo simbólico, acontece na “... vivência na imagem e da imagem” (Jung, OC V. IX/I, §82).
As artes, mitos, religiões e literatura sempre expressaram as mais profundas emoções humanas. São meios de comunicação comuns a toda espécie humana, que permitem que nos expressemos “...através da palavra, da mímica e das reações psicomotoras, da realização de atos, das várias modalidades de expressão plástica” (Silveira, 1981 : 114). A função simbólica da arte reside na possibilidade dessa expressão e nos múltiplos significados das obras de arte, ambos inerentes ao fazer artístico.
A arteterapia, embora originada dessa atividade milenar, é de aparecimento recente como instrumento de terapia. Na década de 20, Jung começou a utilizar a arte como parte do tratamento psicoterápico, considerando-a “... a expressão mais pura que há para a demonstração do inconsciente de cada um. É a liberdade de expressão, é sensibilidade, criatividade, é vida” (in Chiesa, 2004 : 34). Para ele, as imagens eram uma simbolização do inconsciente e a criatividade, uma atividade humana natural que, na medida em que pode estruturar o pensamento, possui uma função em si mesma.
A arte é instrumento essencial para o desenvolvimento humano; daí ter efeito terapêutico (podendo até mesmo ser autocurativa), pois possibilita ao indivíduo expressar seus conteúdos conflitivos e/ou traumáticos através de suas produções artísticas, ajudando na revelação do inconsciente (Diniz, 1998). Quando utilizada com fins terapêuticos, os aspectos estéticos deixam de ser privilegiados.
A prática da arteterapia facilita a decifração do mundo interno, o confronto com as imagens e a energia psíquica que aí se configuram. A compreensão destas formas simbólicas possibilita o confronto com o inconsciente e a tomada de consciência de seus conteúdos, pois o mundo das emoções e o mundo das coisas concretas não estão separados por fronteiras intransponíveis. Ambos permeiam-se no dia a dia, o que é particularmente manifesto nas obras de artes plásticas e literárias, e a arteterapia pode aperfeiçoar estes intercâmbios.
            É, portanto, um processo terapêutico baseado na criação e análise de séries de produções artísticas (que, isoladas, poderiam ser de difícil decodificação) que permitirão acompanhar com bastante clareza o desdobramento de processos intrapsíquicos e identificar temas que possuam relação significativa com os casos clínicos em estudo. Tais produções, tal quais os sonhos, indicam motivos míticos e a existência de uma continuidade no fluxo de imagens do inconsciente.
Disse Jung (OC Vol. VIII/II §168):
 “Pode-se expressar um distúrbio emocional, não intelectualmente, mas conferindo-lhe uma forma visível. Os pacientes que tenham talento para a pintura ou o desenho podem expressar seus afetos por meio de imagens. Importa menos uma descrição tecnicamente ou esteticamente satisfatória, do que deixar o campo livre à fantasia, e que tudo se faça do melhor modo possível”.
Jung percebeu a relevância do uso de técnicas expressivas como meio de acesso ao inconsciente, integrando a expressão artística à linguagem verbal. As duas ocorriam juntas no setting terapêutico, “...uma auxiliando, esclarecendo e enriquecendo a outra” (Carvalho, 1995 : 31), permitindo que os analisandos se expressassem “...de conformidade com o gosto ou os dotes pessoais” (Jung, OC Vol. VIII/II  parágrafo 400): de forma dramática, dialética, visual, acústica, ou na forma de dança, pintura, desenho ou modelagem. O resultado era uma série de produções artísticas complicadas, cuja multiplicidade me deixou confuso durante anos, até que eu estivesse em condições de reconhecer que este método era a manifestação espontânea de um processo em si desconhecido, sustentado unicamente pela habilidade técnica do paciente, e ao qual, mais tarde, dei o nome de “processo de individuação”.
Ao perceber o efeito terapêutico de tais técnicas sobre o indivíduo, Jung abriu uma nova perspectiva para o processo psicoterapêutico.
“... com a mão que guia o creiom ou o pincel, com o pé que executa os passos de dança, com a vista e o ouvido, com a palavra e com o pensamento: é um impulso obscuro que decide, em última análise, quanto à configuração que deve surgir; é um a priori inconsciente que nos leva a criar formas (...) A imagem e a significação são idênticas, e à medida que a primeira assume contornos definidos, a segunda se torna mais clara” (ibid : 141).
Sobre este aspecto, diz Silveira (1981 : 102): “... através deste método, onde se conjugam imagem e ação, Jung descobriu o desdobramento de um processo inconsciente — o processo de individuação, que é o próprio eixo de sua psicologia”. Seu trabalho com pacientes psicóticos nos mostra o êxito do uso terapêutico das técnicas expressivas tendo a Psicologia Analítica como base.
O processo psíquico desenvolve seu dinamismo por meio de imagens simbólicas. O símbolo (fruto da energia psíquica, objetivada em imagens) traz a possibilidade de “... conhecer, compreender, refazer, recuperar, rememorar, reparar estruturas e transcender” (Philippini, 2000 : 19). 
Nas produções artísticas pode-se promover a transferência de energia de um nível para outro. Através do processo criativo, estabelece-se uma ponte entre extrapsíquico e o intrapsíquico, que pode vir a curar a dissociação entre as revelações internas e externas. Ao criar uma obra, estabeleço uma relação extrapsíquica com esse objeto e simultaneamente uma relação intrapsíquica com o conteúdo que a originou; a imagem passa a ser viva, atuante e poderá ter eficácia criativa. A Arteterapia, sob a ótica junguiana, parte do princípio que a vida psíquica tem uma tendência inata à organização e que o processo terapêutico através da arte poderá dinamizar esta tendência. As técnicas e materiais escolhidos fundem-se à “... energia psíquica da pessoa e o material (...) que ela escolher, criando, expressa as marcas e as dores, tornando possível a transformação que se deseja” (Fussi, in Valladares, 2004 : 149). No referencial junguiano, os símbolos são parte do processo de autoconhecimento e transformação, “... atuam na vida. (...). Alcançam dimensões que o conhecimento racional não pode atingir. Transmitem intuições altamente estimulantes, prenunciadoras de fenômenos ainda desconhecidos” (Silveira, 1994 : 85). Conectam a essência de cada ser, atuando diretamente no eixo Ego-Self e apontando o rumo que a energia psíquica segue. São, assim, os norteadores do caminho que o arteterapeuta deve seguir.
Por facilitar a expressão das emoções através de produções artísticas, a Arteterapia é uma excelente forma de confrontar imagens sombrias. Proporciona oportunidades de a imaginação desenvolver-se livremente e permite ao indivíduo participar concretamente do produto imaginado. O exorcismo das imagens aterradoras reduz seu impacto, tornando-as mais familiares. A arte despotencializa a carga emocional dessas imagens e facilita tanto sua decodificação quanto a reorganização interna e a reconstrução da realidade. Expressando através da arte os fragmentos de um ego cindido, ou de um conflito vivenciado desordenada e dolorosamente, o indivíduo conseguirá libertar-se dessas imagens aprisionadas e aprisionantes.
O arteterapeuta lida diretamente com a capacidade simbólica da comunicação não-verbal. Uma vez que a arteterapia leva “...à materialização de símbolos” (Philippini, 1998 : 5), torna-se um instrumento "intermediário", que possibilita agrupar processos inconscientes e os situar, aos poucos, discriminadamente no nível consciente. As técnicas utilizadas possibilitam que os símbolos sejam expressos livremente.
Tais criações simbólicas
“... expressam e representam níveis profundos e inconscientes da psique, configurando um documentário que permite o confronto, no nível da consciência, destas informações, propiciando insights e posterior transformação e expansão da estrutura psíquica” (ibid : 6).

A análise simbólica (a interpretação do símbolo) se dá tanto no nível objetivo quanto no subjetivo. No primeiro, busca-se relacionar os conteúdos emergentes com a realidade da pessoa, vinculando-os a fatos, pessoas, situações reais e ao que possa ter provocado tal emersão. No segundo, os conteúdos emergentes são vistos como aspectos e possibilidades do indivíduo, visando a tornar manifesto um conteúdo latente.
Para tanto, o arteterapeuta pode utilizar a interação entre técnicas artísticas e o verbal, lançando mão de desenhos, pinturas, colagem de papéis ou outros materiais, modelagem, esculturas, expressões corporais, psicodrama, ritmos, canto; ou ainda armar um brinquedo, explorar conteúdos emergentes na vivência de fantasias dirigidas, na montagem de uma caixa de areia, na criação e interpretação de personagens, no movimento, na postura ou na expressão corpórea, entre tantas outras variações de técnicas criativas, que podem ser plásticas, artesanais, corporais, dramáticas, literárias, musicais.
Tais recursos são utilizados de forma integrada ou isolada, conforme a necessidade de cada paciente e o objetivo do terapeuta. Podem favorecer tanto a amplificação do símbolo (buscando compreendê-lo melhor, utilizando técnicas e materiais para gerar novas realidades e uma ampliação dos significados) quanto sua circumambulação (os materiais e técnicas trazem novos recursos para a exploração de outras representações, trazendo um novo sentido ao conteúdo expresso).
Por facilitar a visualização dos símbolos, o processo arteterapêutico acarreta um grande volume de imagens, através das quais o terapeuta tem acesso ao universo imaginário de seu cliente e observa os mais diversos registros, carregados de imagens arquetípicas. Ao arteterapeuta cabe
“... a sensibilidade para acolher as imagens simbólicas que representam a transformação dessa energia (psíquica), criando condições para que as imagens do inconsciente encontrem formas de expressão. Essas imagens próprias da percepção do mundo (interno) trazem recursos importantes para ampliarmos o aprendizado do outro e aprendermos a partir dessa relação” (Philippini 2000, in Fussi, 2000 : 144).”
Trata-se, portanto, de “...um trajeto, marcado por símbolos, que assinalam e informam sobre estágios da jornada da individuação de cada um” (Philippini, 1998 : 7) e se manifestam através de analogias, das associações e das várias descobertas que ocorrem no enfrentamento do sujeito durante a criação de sua obra ou com ela. Sendo assim, o percurso arteterapêutico numa abordagem junguiana busca fornecer “...suportes materiais adequados para que a energia psíquica plasme símbolos em criações diversas. Estas produções simbólicas retratam múltiplos estágios da psique, ativando e realizando a comunicação entre inconsciente e consciente” (Philippini, 2000 : 17). Podem, então,
“... tornar os conteúdos inconscientes acessíveis, assim aproximá-los da compreensão. Com esta terapêutica consegue-se impedir a perigosa cisão entre consciência e processos inconscientes. Todos os processos e efeitos de profundidade psíquica, representados pictoricamente são, em oposição à representação objetiva ou consciente, simbólicos, quer dizer, indicam da melhor maneira possível, e de forma aproximada, um sentido que, por enquanto ainda é desconhecido” (Jung OC Vol. XV : 207).

Nessa experiência, o indivíduo pode viver o símbolo – isto é, se permitir ser tocado emocionalmente por ele – e conectar-se com as lembranças de sua história de vida na perspectiva do símbolo vivificado, com as memórias dos antepassados através dos conteúdos míticos vinculados àquele símbolo e com as possibilidades presentes no significado arquetípico da imagem simbólica.
No pensamento de Jung, a criatividade reveste-se de uma extrema importância. De fato, ele afirma que, “... do ponto de vista psicológico, é possível distinguir cinco grupos principais de fatores instintivos, a saber: a fome, a sexualidade, a atividade, a reflexão e a criatividade” (Jung, OC Vol. VIII/II § 55). Nem tudo que é criativo é artístico, mas tudo que é artístico é criativo. Ao usar a arte no processo de individuação, ajudamos a abrir o canal da criatividade, o canal de fazer cultura como forma de sobrevivência, não só física como psíquica. Para o ser humano, não basta só a nutrição orgânica, viver para procriar e se alimentar; ele precisa de um sentido na vida, busca a conexão com sua alma. A criatividade é um potencial inerente ao homem, e a sua realização é uma necessidade.

            A ARTE E O NUMINOSO
Um aspecto importante do uso da arte é como facilitadora do encontro com o numinoso. O numinoso, segundo Jung é (OC Vol. XI/I, § 6)
“... uma instância ou efeito dinâmico não causado por um ato arbitrário da vontade. Pelo contrário, ele arrebata e controla o sujeito humano, que é sempre antes sua vítima que seu criador. O numinoso é tanto uma qualidade pertinente a um objeto visível, como a influência de uma presença invisível, que produzem uma modificação especial na consciência”. (OC Vol. VIII/II, § 216)
Esse contato com o numinoso foge inteiramente à nossa vontade, embora algumas pessoas o busquem através de drogas, práticas religiosas e outros caminhos. O numinoso não pode ser conquistado, o indivíduo pode somente abrir-se para ele. Quando nos deparamos com o numinoso, essa emoção é impossível de ser descrita. Não há explicação, mas traz sempre uma mensagem misteriosa, enigmática e profundamente impressionante.
Desde épocas arcaicas, a arte funciona como um meio de apreensão e reconhecimento das coisas significativas do homem, tanto nas suas experiências externas quanto internas. Escrevendo uma poesia, tocando uma música, pintando ou dançando, somos capazes de trabalhar com forças interiores que, se permanecessem inconscientes, poderiam nos esmagar. Assim, não fugimos nem evitamos o que está nos perturbando, ao contrário, ”nós o confrontamos munidos de um novo referencial”. (Nachmanovitch, 1993:166).
Por trás do impulso criativo existe um nível mais profundo de compromisso, um estado de comunhão com um todo que está além de nós. Quando esse elemento de união é injetado em nossas formas de expressão, atingimos algo que ultrapassa a mera criatividade, o simples propósito ou a mera dedicação; “atingimos um estado em que agimos por força do amor. O Amor está relacionado à perpetuação da vida, e, portanto, irrevogavelmente ligado a nossos valores mais profundos.” (Nachmanovitch, 1993:166)
Ao nos conectarmos com esse Amor, nosso estado de consciência se transforma. Diante da suprema Alteridade e do eterno Amor, o ser humano entra num estado místico. Tudo fica numinoso e carregado de energia divina. (Boff, 2002).
No sul do México, o povo Nautle chama os artistas de Tehuani, que significa “aquele que se conecta com Deus”. Pois através da arte nos conectamos com a Totalidade. Como diz Jung, através da arte “se toca as regiões profundas da alma, salutares e libertadoras, onde o indivíduo não se segregou ainda na solidão da consciência, seguindo um caminho falso e doloroso. Tocou as regiões profundas, onde todos os seres vibram em uníssono...” (OC Vol. XV § 161)
            Nesse momento, experimentamos um poder superior dentro de nós, um fator desconhecido em si, o Numinoso. Não podemos defini-lo, ou entende-lo, mas através da arte, podemos praticá-lo.
          
            CONCLUSÃO
            A arteterapia, como vista ao longo deste trabalho, é uma prática terapêutica que se utiliza de diferentes recursos expressivos, como as artes plásticas e cênicas, música, a expressão corporal e a literatura, como aliadas numa leitura simbólica do fazer artístico.
            Afinal, pintar, desenhar, cantar e representar constitui formas contundentes e instigantes de manifestação do “eu”. As expressões artísticas, portanto, vêm se tornando uma importante ferramenta terapêutica. Proporciona-se um espaço para revelação de sentimentos, uma abertura para a vida e todas as possibilidades desta. Através do processo criativo, estabelece-se uma ponte entre o extrapsíquico e o intrapsíquico, que pode vir a curar a dissociação entre as revelações internas e externas. Pois, ao criar uma obra, estabeleço uma relação extrapsíquica com esse objeto e simultaneamente uma relação intrapsíquica com o conteúdo que a originou.
            A arte traz em si uma possibilidade de tradução de imagens e representações mentais em expressão, trazendo o mundo interno para o concreto e possibilitando ao sujeito visualizar concretamente sua transformação.
            Percebemos que a linguagem do inconsciente é uma linguagem simbólica e que a arte, assim como os sonhos, seria uma forma de comunicação desse inconsciente. 
            A arteterapia favorece esse processo, estruturando a personalidade, que se expressa na criação. O trabalho com a expressão e criação artística é construtor de um canal direto para receber a informação do sistema límbico tanto de memórias pré-verbais, como imagens simbólicas, precursoras de novos acontecimentos que irão se realizar no futuro.
            Jung mostra ao longo de sua obra, que o inconsciente não só reage; ele age, ele prediz, ele alerta, ela abre horizontes, ele elucida. Sendo a escrita do inconsciente essencialmente imagética, a Arteterapia é meio eficaz para captar e expressar essas imagens, trazendo-as para sua expressão material, abrindo-se para a integração à consciência.
            Trabalhando com processos pré-verbais, a arteterapia, além de interiorizar esse mergulho no inconsciente, ajuda na expressão desses conteúdos, trazendo imagens de uma memória ancestral. E nesse processo de inteireza de ser, a gente realiza no indivíduo a história do homem, a coletividade, a totalidade.

 

 

Ligia Diniz possui graduação em Psicologia pela Universidade Santa Úrsula (1992) e graduação em Bacharel em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (1981), atuando principalmente como Psicóloga Junguiana, Arteterapeuta e Facilitadora de Biodança, Professora de Arteterapia e Psicologia Analítica. É Analista Junguiana formada pelo Instituto Junguiano do Rio de Janeiro, membro da Associação Junguiana Brasileira e do Instituto Internacional de Psicologia Analítica. Membro fundador da Associação de Arteterapia do Rio de Janeiro e membro do Conselho Diretor da União Brasileira de Arteterapia.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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