A Criança Interior

Liga Diniz

 

Resumo

Esse artigo tem como objetivo mostrar a importância do arquétipo da criança divina a partir das noções básicas de psicologia analítica de C.G.Jung, e encontrando na arteterapia um meio facilitador da conexão com esse arquétipo.

Abstract

In this article I show how important is Jung’s basic archetypical notion of the divine child, and how to find in Art-Therapy one way to facilitate the connection  with this archetype.

 

“... Sem a criança, não existiria deus-pai nem deus-mãe. Sem o filho, obviamente, não existiria o ser humano. Por isso, porque o gênero humano significa existência, vida, e essa vida se inicia bem pequena, com mãozinhas e pezinhos minúsculos, e porque essa vida estabelece a união com Deus, e Deus criou a vida - à sua imagem, por isso a criança é divina.” 
Angela Waiblinger

 

O Arquétipo da Criança Divina

C.G.Jung, psiquiatra Suíço, criador da psicologia analítica, considerava a existência de três níveis da psique humana: a consciência, o inconsciente pessoal, o inconsciente coletivo.

A consciência aglomera pensamentos, palavras, lembranças, identidade, sensações, gestos, sentimentos, imagens, fantasias... Refere-se ao estar desperto e atento, observando e registrando tudo o que acontece no mundo que nos rodeia  e dentro de nós..Tem como função primordial situar o sujeito no tempo e no espaço, realizando todas as orientações e adaptações necessárias para possibilitar a relação que se estabelece na troca do sujeito com o meio físico e humano. Para que qualquer conteúdo psíquico torne-se consciente terá necessariamente de relacionar-se com o ego, que é o centro da consciência.

Inconsciente pessoal corresponde a “... uma camada mais ou menos superficial” (Jung, OC V.XVIII/2, 1159) de conteúdos, cujo marco divisório com o consciente não é tão rígido. Contém todos os conteúdos esquecidos ou reprimidos pelo indivíduo, deliberada ou involuntariamente. Estes se referem às experiências vividas, ligadas às disposições internas do indivíduo. Encontram-se também no inconsciente pessoal as percepções e impressões subliminares dotadas de carga energética insuficiente para atingir o consciente. Nele encontram-se os complexos “grupos de representações carregados de forte potencial afetivo, incompatíveis com a atitude consciente” (Jung, Vida e Obra; Nise Silveira – pág.73)

Inconsciente coletivo seria a camada mais profunda da psique constituída pelos materiais que foram herdados da humanidade. No Inconsciente Coletivo encontram-se os arquétipos, formas estruturantes herdadas que é comum a todo ser humano embora se manifestem de maneira diferente de acordo com as culturas. Como exemplos de arquétipos são: o Herói, a Grande Mãe, do Pai, da Criança Divina, do Órfão, dos Irmãos Inimigos, entre tantos outros.

 O arquétipo da criança divina diz respeito a nossa criatividade, espontaneidade, essência, é o futuro em potencial. ”Um aspecto fundamental do motivo da criança é o seu caráter de futuro.” (Jung, OC V. IX/I, 278) 

“... a “ criança” é dotada de um poder superior e que se impõe inesperadamente, apesar de todos os perigos.A “ criança” nasce do útero do inconsciente,gerada no fundamento da natureza viva. É uma personificação de forças vitais, que vão além do alcance limitado da nossa consciência, dos nossos caminhos e possibilidades,desconhecidos pela consciência e sua unilateralidade, e uma inteireza que abrange as profundidades da natureza. Ela representa o mais forte  e inelutável impulso do ser, isto é, o impulso de realizar-se a si mesmo”.(Jung, OC V. IX/I 289)


RESGATANDO A CRIANÇA INTERIOR

 

 Fui convidada para dar uma palestra e workshop numa universidade com a finalidade de falar sobre a criança interior e a importância de ativar a criatividade e espontaneidade no individuo e na sociedade.
A nossa saúde e a nossa criatividade esta relacionada com a forma com que lidamos com a nossa criança, não só a criança concreta, como a criança interior.
A criança é criativa. Resgatar a criança é resgatar o núcleo de saúde do indivíduo, e esse resgate de saúde do indivíduo tem repercussão na coletividade.
Utilizei-me então do conto “O velho que perdeu a verruga” como instrumento de trabalho para ilustrar esse assunto, pois este retrata esse resgate da criança interior.

  

O Velho que Perdeu sua Verruga

                               (Conto Japonês)

 

       Em tempos que já lá vão, um velhinho morava com sua esposa perto de uma floresta. Na juventude ele fora um belo rapaz, mas à medida que envelhecia, uma feia verruga cresceu-lhe na face, ficando, com a idade, cada vez maior. Durante anos, recorreu a médicos e magos e experimentou pós e poções, mas nada adiantou. Por fim resignou‑se com a verruga e tentava mesmo brincar a respeito.
         Um dia, o velho precisou de lenha para o fogo; foi então para as montanhas e cortou algumas achas. Fazia um dia fresco de outono e ele se sentia tão feliz que nem viu as nuvens se adensarem. Quando caíram as primeiras gotas, correu a procurar abrigo. Encontrou uma árvore oca e lá se escondeu, no exato momento em que irrompeu a tempestade. Trovões sacudiam as montanhas e raios cintilavam ao seu redor; ele, porém, estava seco e seguro. Depois de muitas horas, a tempestade amainou e o velho saiu de seu refúgio. Ouviu vozes à distância e pensou que seus vizinhos tinham vindo à sua procura. Mas quando viu do que se tratava, pasmou horrorizado ‑ uma horda de gnomos e demônios se aproximava!

          Mais que depressa, voltou para seu esconderijo na árvore, tremendo de medo. Os demônios chegaram e um dos gnomos ‑ o mais horrendo de todos e obviamente o chefe ‑ dirigiu‑se ao seu bando, dizendo com um gesto: ‑ Vamos dar uma festa aqui. ‑ Então o rei‑demônio acomodou‑se de costas para o velho, na frente da árvore oca. O pobre homem quase desmaiou de medo.
         Os demônios organizaram rapidamente um piquenique e começaram a cantar. O velho observava atônito ‑ nunca vira nada semelhante. Mas quando os demônios começaram a dançar, não pôde conter o riso. Eram desajeitados e deselegantes, e todos pareciam ridículos, dando coices para todo lado e caindo. Finalmente, o rei dos demônios com um gesto ordenou aos dançarinos que parassem. ‑ Vocês são ruins demais' ‑ disse, se lastimando. ‑ Não existe ninguém aqui que saiba dançar bem?       
 Ora, o velho adorava dançar e sabia dançar muito bem. – Eu poderia ensinar‑lhes uns passos ‑ pensou consigo mesmo, mas não ousava revelar sua presença, temendo que os demônios o matassem. – O rei‑demônio tornou a perguntar se alguém sabia dançar e o velho conti­nuava dividido entre seu amor pela dança e seu medo dos demônios. O rei‑demônio perguntou urna terceira vez e o velho mandou seus receios às favas.
       Saiu da árvore e curvou‑se perante o chefe dos demônios. ‑ Eu sei dançar, meu senhor ‑ disse e começou a fazê‑lo. Os demônios ficaram escandalizados por terem um homem em seu meio, mas, bem logo, admiraram a arte do velho. Começaram a marcar o ritmo com seus cascos, acompanhando a música e alguns se juntaram ao velho. Por sua vez, o velho sabia que sua vida dependia de ele dançar bem, de forma que Pôs toda sua alma e todo seu coração em seus movimentos e divertiu‑se, realmente. Quando parou, o rei‑demônio aplaudiu e convidou‑o a sentar-se ao seu lado, oferecendo‑lhe um copo de vinho.

‑ Você precisa voltar amanhã para dançar para nós ‑ o rei‑demônio disse.

‑ Gostaria muito de vir ‑ respondeu o velho.

Um dos conselheiros do rei admoestou‑o. ‑ Não se pode confiar nos homens. Precisamos ficar com algo que nos dê certeza de que ele vai voltar. ‑ Infelizmente, o velho nada trazia de valor consigo.

‑ Bem, então ‑ o rei‑demônio disse ‑ vou ficar com isto como penhor ‑ e, estendendo a mão, agarrou a verruga do velho e arrancou-a com a facilidade de quem arranca um pêssego maduro. ‑ Trate de voltar amanhã ‑ ordenou, e todos os gnomos desapareceram.

O velho mal podia acreditar no que acontecera. Passou a mão pelo rosto e percebeu o quão suave ‑ e simétrico! ‑ estava. Ficou tão feliz, que foi para casa pulando, cantando ‑ e dançando ‑ durante todo o trajeto. A esposa, ao vê‑lo livre da verruga, mostrou‑se eufórica e ambos celebravam sua boa sorte.
Ora, o velho tinha um vizinho malvado e vaidoso que também tinha urna verruga e que nunca se cansara de procurar um tratamento para ela. Quando soube da celebração, foi espiar e ficou perplexo ao ver que a verruga do velho havia sumido. Este homem invejoso imediatamente perguntou o que acontecera e o velho lhe contou a história. O vizinho, então, insistiu para ir vê‑los, no dia seguinte, em lugar do velho.

          No dia seguinte, pois, o vizinho vaidoso rumou para as montanhas e encontrou a árvore oca, exatamente como o velho lhe dissera. E, sem sombra de dúvida, ao anoitecer, o bando de demônios apareceu.

‑ Onde está o velho que ia dançar para nós? ‑ o rei‑demônio perguntou. O mal vizinho rastejou para fora da árvore, tremendo de pavor.

- Aqui estou! ‑ disse e começou a dançar. Ele, no entanto, nunca havia aprendido a dançar; considerava a dança aviltante à sua dignidade de forma que apenas pulava de um lado para outro, agitando os braços. Ele achava que os demônios não iriam notar a diferença, porém o rei ficou ofendido.

 ‑ Mas que coisa horrível! ‑ o rei‑gnomo exclamou.

‑ Você não está dançando como ontem! ‑ Orei não atinara que estava tratando com outra pessoa porque, a seu ver, todos os humanos eram iguais.

‑ Não dápara agüentar! ‑ o rei‑demônio gritou, afinal. Vasculhou o bolso e encontrou a verruga.

‑ Olhe, devolvo‑lhe o penhor. Dizendo isso, atirou a verruga no homem vaidoso e esta grudou‑lhe no rosto.

         Depois, os demônios sumiram. Em pânico o homem vaidoso apalpou o rosto e não havia dúvidas: tinha duas verrugas, uma em cada face! Esgueirou‑se para dentro de casa
bem mais tarde da noite, e ninguém viu sua cara nunca mais porque, desse dia em diante, passou a usar um chapéu de abas largas, bem enfiado na cabeça.
        Quanto ao velho que perdeu sua verruga, ele viveu ainda tempo e dançava quando se sentia feliz. O que, na verdade, acontecia quase sempre!
          Esse conto japonês fala da reconquista que o velho faz da inocência da sua infância, ou seja, da sua criança interior.
           A verruga simboliza alguma feiúra interior, uma feiúra da vida adulta, pois ele não tinha verruga quando jovem.
          Ao dançar com todo seu coração pelo simples prazer de dançar, como uma criança brinca – com graça e espontaneidade, com inocência – ele perde sua verruga.
           Ao dançar com os demônios o velho manda às favas a racionalidade e a prudência, ele perde o medo; ignora a preocupação que adultos têm de parecer ridículo. Ele reencontra a sua criança.
         Encontrar nossa criança interior, ou seja, ativar o arquétipo da criança é ativar a espontaneidade, liberdade, futuridade, esperança, criatividade, perseverança.
        As pessoas que não estão conectadas com a sua criança não se arriscam, não são originais.
O que paralisa na vida é o medo.
         Quando o personagem do conto dança com os demônios, ele está rompendo com o medo. Ele desmistifica o medo.
         O medo nos circunscreve a um âmbito de vida muito limitado, muito fechado, onde vivemos muito aquém das nossas próprias possibilidades.
         E tendo uma vida empobrecida consigo mesmo, ela será empobrecida também com os outros, no seu âmbito de vida familiar, profissional e social.
        A saúde para Jung é sinônima de flexibilidade, que nada mais é do que o fluxo livre da libido (energia psíquica). E o medo é aquilo que articula a rigidez, a contenção, que é sinônimo da doença.       
        Uma sociedade rígida, paralisada, se torna uma sociedade repressora, crítica, limitadora.
        À medida que conseguimos confrontar as nossas barreiras do medo, os nossos arquétipos repressores parentais, culturais, então nós liberamos o fluxo da energia psíquica e permitimos que a nossa criança que foi reprimida se reencontre. Se essa criança for reencontrada, a espontaneidade, a criatividade é reencontrada. Pois com o surgimento da criança, surge a liberdade para ser criativo.
           Todos os sintomas sejam eles somáticos, psíquicos e/ou anti-sociais são frutos do aprisionamento da libido. Toda libido aprisionada pela sombra, pelo mar negro do inconsciente, forma os perigosos demônios do mal. A saúde, a criatividade, o bem estar social evidentemente estão ligados a essa liberação de energia.
   Para chegar a esse ideal, incontestavelmente, a arteterapia se coloca na vanguarda; pois a arte propicia a mobilização do sujeito com sua criança interna, seu Self, permitindo então a expressão e expansão de todo esse potencial que o arquétipo da criança contém.
A atualização do arquétipo da criança em qualquer fase da vida possibilita vincular todo esse potencial criativo.
       Essa energia que até então foi reprimida e que atua e se atualiza em alcoolismo, consumismo, sexo compulsivo, drogas, etc., vai fazendo um deslocamento de sua atuação pelo negativo através das adições, para o pólo positivo criativo.
       A criança é antes do seu estágio verbal essencialmente imagética e motora. Utilizando a arteterapia que usa as imagens, o corpo, a música etc.. Podemos nos conectar com esses estágios de desenvolvimento psíquico mais original, primeiros e mais espontâneos. E assim resgatar nossa criança e com ela nossa criatividade.
       Ao se resgatar a criança interna de cada indivíduo, estamos possibilitando a revitalização do indivíduo, e conseqüentemente a revitalização da humanidade.

 

WORKSHOP E PALESTRA

 

          Nesse workshop  trabalhei a ativação do arquétipo da criança, ou seja, nosso potencial criativo.
          Começamos com um aquecimento físico, com alguns exercícios de integração de grupo, e exercícios para soltar o corpo e trazer a espontaneidade. Depois contei o conto. E a partir dessa idéia convidei as pessoas a “perderem sua verruga” se conectando com sua criança interna, com sua criatividade através da dança, do canto e da pintura espontânea.
         Para isso utilizarei exercícios de arteterapia que facilitam esse despertar da criança interior.
         Chamei os participantes a dançarem, ao som de tangos de Piazzola, música cigana e cirandas, onde eles dançaram sem se preocupar com certo, com critica  e sim conectadas com o seu desejo de  expressar livremente sua criança interna, vencendo o medo e se entregando ao simples prazer de dançar .E depois disso cantamos  cantigas de infâncias e músicas que expressavam sua emoção no  momento  e por último fizemos uma pintura espontânea  me utilizando da  pintura a dedo para que eles pudessem liberar plasticamente seus sentimentos. Sem usar pinceis usando diretamente os dedos e as mãos para melhor expressar essa criança interior.
                  O workshop foi dado na parte da manhã e na parte da tarde a palestra.
                  No momento em que me sentei para começar a falar sobre o assunto, chegou em minhas mãos uma reportagem ,  sobre  uma homenagem que uma escola estava  fazendo à minha irmã “ Leila Diniz”, na  qual ela estava  sentada  rodeada de crianças brincando e cantado. Aproveitando essa sincronicidade resolvi incluir Leila na minha palestra. Citei-a como exemplo de um caso bem sucedido de alguém que se conectou com a criança divina, atualizando esse arquétipo, trazendo toda a sua essência, espontaneidade, criatividade e alegria de viver, de uma forma adulta e com autonomia em sua vida.  Leila com toda essa criatividade inovou o comportamento feminino no que diz respeito a maternidade, sexualidade e linguagem.
              É importante não confundir estarmos conectados com a criança divina com estar regredido na figura do “puer eternus”, onde o individuo não amadurece emocionalmente.
             Estes ficam presos de forma regredida à sua criança, por motivos diversos.  Outras pessoas se desconectaram de suas crianças e se tornaram adultos rabugentos, sênex. A Arteterapia auxilia as pessoas a saírem de uma ligação mórbida com sua criança para uma ligação saudável. Tendo sua criança interna como fonte de criatividade e encontrando sua essência. Assim o indivíduo vai se tornando cada vez mais ele mesmo, desenvolvendo o seu potencial no que Jung chamou de processo de individuação.

 

CASO CLÍNICO

Uma cliente, que vou aqui chamá-la de Maria, me procurou por ter um problema na fala, que lhe trazia desconforto e insegurança. Segundo seu relato sempre que ia falar em público, gaguejava. Esse sintoma surgiu quando criança, aos 6 anos de idade. Maria teve um pai e mãe muito rígida, que não lhe davam muito espaço para se expressar, nem para cometer erros, pois a puniam com muita dureza. Essas figuras paternas e maternas autoritárias e repressoras que Maria introjetou, a levaram a uma exigência interna de perfeição nos estudos, no trabalho, e não se permitindo ter prazer, até nos fins de semana ela tinha tarefas do trabalho para fazer em casa. Tinha dificuldade de se divertir, pois se sentia culpada. Suas primeiras imagens na terapia mostravam toda a sua rigidez: lápis de cor arrumados enfileirados (figura 1), soldados em fila. Maria associava a essas imagens seu gosto por tudo organizado.

(figura 1)
     
Ao criar um cenário na caixa de areia. Maria coloca no centro da caixa uma boneca presa na rede, deixando claro que a sua criança está sem poder se expressar, aprisionada (figura 2). Pedi que fizesse uma colagem contextualizando a sua infância. Na colagem mais uma vez surge essa criança amarrada e presa (figura 3).


   (figura 2)        (figura  3)


Sempre que ia se expressar plasticamente, escolhia lápis de cor ou grafite, materiais que são fáceis de controlar. Fui, então, oferecendo-lhe materiais mais fluidos, comecei com lápis aquarelado, que ela começava de uma forma mais rígida desenhando, depois molhando o pincel ela ia dissolvendo um pouco essa forma. Usamos aquarela, ecoline, pastel seco, materiais que não permitem muito controle. Foram surgindo, a princípio, imagens de grades (figura 4), depois grades se dissolvendo (figura 5), depois uma menininha (figura 6) e uma menina jogando bola (figura 7).
 (figura 4)    (figura 5)
    (Figura 6)     (Figura 7)
                                                        

A série de imagens que foram aparecendo, estavam compensando a atitude unilateral, rígida e mental de Maria; mas também estava lhe mostrando um caminho, uma postura diferente da sua atitude consciente até então. Maria, após um tempo, começou a jogar vôlei depois do trabalho, esporte que praticava na adolescência. Parou de levar trabalho para casa nos fins de semana. Passou a usufruir os seus dias de descanso, indo à praia, indo ao cinema com seus filhos e seu marido. No mês passado entrou para uma academia de capoeira. Segundo Maria, capoeira sempre foi “coisa” do submundo, e ela agora queria vencer esse preconceito e experimentar algo totalmente novo na sua vida. Maria estava libertando a sua criança pouco a pouco.
Podemos perceber, através das imagens e da mudança de comportamento de Maria, que o inconsciente lhe orientou para uma direção diferente, buscando uma nova forma de atuação na vida, mais conectada com a sua criança interior.
Começa a surgir um vulto de mulher (figura 8). Depois um rosto de mulher com os cabelos soltos dando idéia de liberdade (figura 9).
 (figura 8)          (Figura 9)


Fizemos uma nova caixa de areia, onde Maria já se coloca adulta montada num cavalo; nesse momento ela se mostra de posse da direção da sua vida sem perder  a magia e criatividade da sua criança, representada pela figura de Harry Potter na caixa (figura 10 ).

(figura 10)

 Gostaria de ressaltar, que depois dessa mudança, Maria está se expressando com mais segurança, e não está gaguejando ao falar em público.
          Para finalizar lembro que para Jung a criatividade é de natureza semelhante à do instinto (OC Vol. VIII/2), um potencial inerente ao homem e que precisa ser realizado. Ao usar a arte no processo de individuação, estamos estimulando no sujeito a sua criatividade.
          A criança é criativa. Libertando a criança interior, ativamos a capacidade de inventar, de criar, de se expressar e de transformar. Aproximando o ser humano de sua essência, ajudando a colocá-lo em contato mais estreito com sua própria alma.
         

                         

 

LÍGIA DINIZ                          

Psicóloga – CPR 19.000 – RJ
Arteterapeuta;
Membro Fundador da Associação de Arteterapia do Rio de Janeiro;
Pós Graduada em Psicologia Junguiana;
Analista Junguiana, membro do instituto Junguiana do Rio de janeiro, da AJB (Brasil) e da IAAP (Zurique).
Bacharel em Artes Ciências;
Facilitadora de Cursos de Formação em Arteterapia de Base Junguiana no Rio de Janeiro e em Porto Alegre.
Facilitadora de Terapia Corporal em Biodança.

 

Referências Bibliográficas

 

Ammann, Ruth – A Terapia do Jogo de Areia –S. Paulo; Paulus , 2002 .

Chinen, Allan B. – E foram felizes para sempre – Contos de Fadas para adultos – S.Paulo; Cultrix ,1989 .

Downing, Christine (org.) – Espelhos do Self - S. Paulo; Cultrix , 1991 .

Jung, C.G. – Os Arquétipos e o Inconsciente coletivo- Obras Completas, vol. IX/I – R.J. Petrópolis: Vozes ,2000
________- O Desenvolvimento da personalidade, Obras Completa, vol. XVII Petrópolis – RJ: ed. Vozes , 1983 .
________- O eu e o inconsciente, Obras Completa, vol. VII/2 Petrópolis – RJ: ed. Vozes , 1984.

________- Vida Simbólica, Obras Completas, vol. XIII/2 , Petrópolis – RJ : ed. Vozes , 2000.

________- A Natureza da Psique, Obras Completa, vol. VIII/2, Petrópolis – RJ: ed. Vozes, 1991.

Ostrower, Faya – Criatividade e Processo de Criação – S. Paulo: Vozes , 1989.

Silveira, Nise da – Jung Vida e Obra - Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra , 1984.

Waiblinger, Ângela – A Grande Mãe e a Criança Divina – S. Paulo – ed. Cultrix ,1986.


Resumo do conto “Como um Velho Perdeu sua Verruga”, extraído da obra de Y. T. Ozaki, intitulada The Japanese Fairy BoIk (Tóquio: Tuttie, 1970); e Tales of Japan (Tóquio: Tuttie, 1965).

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