A UTILIZAÇÃO DA ARTE TERAPIA NA CLÍNICA INFANTIL
COM ABORDAGEM JUNGUIANA

REVISTA IMAGENS DA TRANSFORMAÇÃO
Nº. 11 - VOL. 10 – 2004.



RESUMO:

Neste artigo apresentam-se as fases do desenvolvimento da criança na abordagem Junguiana e a utilização da arteterapia como facilitadora desse desenvolvimento.

ABSTRACT:

In this paper the child development steps, on the Junguian approach, are related to the facilitating power of art therapy in this process.

A UTILIZAÇÃO DA ARTE TERAPIA NA CLÍNICA INFANTIL
COM ABORDAGEM JUNGUIANA

Para Jung o desenvolvimento da psique parte de um estado original de indiferenciação. O inconsciente existe à priori, contendo todas as possibilidades e potencialidades do sujeito. Ao longo da infância a consciência vai se estruturando, diferenciando-se do inconsciente.

Segundo Neumman as fases de desenvolvimento do indivíduo repetem as da humanidade, as quais são representadas pelos mitos. Sua teoria é uma “releitura” do desenvolvimento humano comparando-o ao desenvolvimento da humanidade, se dá através de Ciclos Arquetípicos de Desenvolvimento, sendo estes considerados “evolutivos-estruturantes”, referindo-se: ”... a transformação progressiva da consciência”.

Assim, no que se refere à infância, os estágios do desenvolvimento da criança partem de um estado de indiferenciação total, observado nos mitos de Origem; passam pelo Matriarcado, onde prevalece o culto à Deusa ou à Grande Mãe e, posteriormente, chegam ao Patriarcado, ao culto aos deuses, ao despertar da Consciência. Seguindo essa seqüência, o sujeito chega à vida adulta, onde vivencia a Alteridade, caminhando rumo ao encontro com o outro até chegar à Dinâmica Cósmica, trazendo a consciência e a re-significação da finitude da existência humana.

A primeira fase do desenvolvimento infantil corresponde ao estágio ourobórico, sendo o ouróboros a representação mitológica da imagem alquímica do dragão que devora a si próprio; a serpente alada, que se engendra e engole a própria cauda.

A energia psíquica, nesta fase, movimenta-se num esquema circular fechado e a criança não tem a percepção de sua separação do outro. Trata-se do período inicial do desenvolvimento humano, abrangendo a fase intra-uterina e os primeiros meses do bebê (a que Neumann chama de Fase Embrionária Pós Uterina).

Neste período não há distinção entre eu-outro, mundo interno-mundo externo, nem diferenciação entre ego e Self. O mundo é, portanto, dotado de duplo sentido: não existe a noção de tempo. A criança vivencia a eternidade, estando num universo que a envolve e a contém, circunda, protege e nutre. Vive num mundo de potencialidade e possibilidades, onde tudo existe, mas nada tem forma, vivenciando o obscuro, o Caos, retratado nos Mitos de Origem.

Na Psicologia Analítica esta fase corresponde ao que na psicanálise se chama de Narcisismo Primário, ao estado ainda não objetal da personalidade infantil.

Tal fase

... caracteriza-se por um mínimo de desconforto e tensão e um máximo de segurança, e também pela unidade entre o eu e o tu, entre o Self e o mundo, se ao referenciarmos ao mitológico, pode ser considerada paradisíaca.

A segunda fase corresponde ao Dinamismo Matriarcal. A criança passa a reconhecer o TU – representado pela figura materna, que para ela é fonte de prazer. Apresenta dificuldades em aceitar interdições e seu comportamento visa o atendimento de suas necessidades básicas.

Enquanto imagem arquetípica, a Grande Mãe traz em si a bipolaridade. Tem tanto o poder de aquecer, sustentar, aconchegar, nutrir e proteger; como o de abandonar, possuir, devorar. Aqui se inicia o desenvolvimento da relação Ego-Self e seus distúrbios. A mãe, ou sua substituta, traz para a criança a possibilidade de transformar quando ao cuidar dela faz magicamente o frio virar aquecimento, o desconforto, conforto, a dor, prazer, a fome, saciedade, etc... A criança está neste momento totalmente susceptível à dor e ao desconforto – primeiros organizadores da consciência – necessitando que alguém outro lhe dê o que ela necessita para sua sobrevivência.

Assim, a disponibilidade ou não disponibilidade da figura materna para relacionar-se com a unidade bio-psíquica do filho é essencial para a formação inicial da criança, uma vez que a formação do Ego está diretamente conectada à experiência corporal, sendo o Self, neste período, totalmente corpóreo. Neumann ressalta o fato de que um distúrbio radical na relação primal pode conduzir à disfunção e à doença mental.

O mundo agora é vivido a partir de opostos que se complementam, uma vez que a realidade externa se apresenta de forma binária e ela pode sentir ora um estado e ora outro, mas ainda não é capaz de estabelecer uma diferença entre eles.

Aos poucos a criança vai criando a percepção de um envelope corporal, uma separação entre dentro e fora, eu e não-eu, vivendo através de seu corpo os limites de sua personalidade. Ocorre, então, um distanciamento progressivo entre a Consciência e o Inconsciente, a criança entra na Fase Patriarcal e começa a aprender a lidar com as normas, as regras, as leis, os deveres, as interdições; torna-se capaz de integrar sensações e observações passadas e presentes, adquirindo a capacidade de recordar-se e ligar-se ao meio em que vive. Adquire a noção de continuidade e passa a ter a memória de sua própria história, tendo noções de ontem, hoje e amanhã. Começa a fazer operações abstratas simples e conquista estágios iniciais de autonomia e independência.

A imagem arquetípica do Pai traz para a criança um lado ativo, prático e protetor; aquele que estabelece metas e faz planos para o futuro. Traz o lado funcional no plano material da realidade, no mundo real. A vida agora é regida pela ética, pelas normas, pelos valores, pelas tradições, pela moral, pelos deveres, pela temporalidade. A criança precisa adaptar-se ao universo cultural e social, que lhe exigem uma série de atitudes e comportamentos, condizentes com o meio externo.

Vale ressaltar, que antes da entrada no universo patriarcal, a criança já assimilou, através da relação primal, reações ativas e passivas de condutas, femininas e masculinas, através dos elementos femininos e masculinos da figura da materna. Pode, então, confrontar-se, agora, com a imagem arquetípica do Pai, vivida não mais como um aspecto inconsciente da figura materna.

A relação mulher-mãe com o mundo e com o homem (parceiro), é dominada pelo princípio de Eros (energia de ligação e processo criador), tendo em seu inconsciente o masculino representado por Logos (conhecimento racional) e Nonos (as leis, normas e tradições). Estes são inconscientemente passados para os filhos em sua maneira de ser e atuar para com estes.

O período do Patriarcado constitui grande parte da infância. É nele que a criança prepara-se para o ingresso na escolaridade formal propriamente, entrando no mundo dos matemáticos e da resolução de problemas.

No final desta fase, ocorre a saída da infância para a adolescência, caracterizada por interesses e alterações físicas e emocionais. Do ponto de vista simbólico, esse momento marca o início pela busca da Alteridade-caracterizada pela necessidade de reconhecer a si e ao outro, determinando as necessidades, os limites e as possibilidades de troca.

A criança, agora pré-adolescente, constela a Dinâmica do Herói, que constitui “ uma tentativa do Inconsciente em criar um modelo de Complexo do Ego ideal, que permanece em harmonia com as exigências da Psique ” . Caminha rumo à Alteridade, começando a tornar-se capaz de suportar a tensão de opostos, e considerar o lugar do outro, o que a levará à construção de sua individualidade e ao relacionamento com um outro, outro, diferente dos modelos parentais.

O desenvolvimento infantil centra-se nestas três primeiras fases: Ourobórica, Dinâmica Matriarcal e Dinâmica Patriarcal. Nelas o estado de dependência é nítido, tanto no que se refere à necessidade de proteção e cuidados, como à necessidade de ser orientado e conduzido no mundo.

Vale ressaltar que essas fases são acumulativas, estando o sujeito predisposto a contatar-se com sentimentos e sensações de cada uma delas em processos regressivos que levam a conexão com conteúdos primitivos que podem ser elaborados a partir de uma nova progressão energética.

Segundo Neumann o regente do desenvolvimento do sujeito nas diferentes etapas da vida, é o Self – Centro da Psique.

Ele chama de centroversão o movimento da psiquê rumo à totalidade, através dos movimentos de diferenciação e de integração. Em cada integração de um novo conteúdo, o Ego se diferencia do Self, tornando-se mais amplo, trazendo para a consciência um pouco da totalidade.

À medida em que a vida segue o seu curso, ocorre uma crescente tensão entre o sistema consciente do Ego e o sistema inconsciente do corpo. Tal tensão é a fonte de energia psíquica, que distingue os seres humanos dos demais animais.

Nas fases do desenvolvimento inicial, até a primeira metade da vida, o Self concentra-se na diferenciação.

Neumann afirma que “ os fatores mais importantes para a compreensão do desenvolvimento individual são a direção diferente e o efeito distinto da centroversão nas duas metades da vida ” .

O processo de diferenciação tem como marca a formação e o desenvolvimento do Ego. Nesta primeira fase, ocorre a centroversão a partir da totalidade atuante do Inconsciente, isto é do Self para o Ego.

Para ele, durante a infância, ocorre um período de “ ego-centração ”, que termina na puberdade. Não há nesta fase a consciência deste movimento, que é uma relação compensatória entre os dois sistemas: Consciente e Inconsciente. Isto é, o Ego não toma conhecimento da sua dependência com relação ao todo.

Quando chega a segunda metade da vida, que normalmente ocorre a partir de uma transformação psicológica da personalidade, surge no Ego a conscientização da centroversão. O movimento da psique, agora, foca a Individualização.

Trata-se de uma expressão do princípio criador/criativo que, na espécie humana, realiza as suas experiências novas no indivíduo portador do Ego, cuja peculiaridade, consiste no fato de ser o único complexo consciente, diferentemente de todos os outros. Ele tende a se assentar como centro da consciência, agregando a si e a outros, conteúdos diversos como conteúdos conscientes, visando como nenhum outro, a totalidade.

O Ego e a consciência são os órgãos da força inconsciente da centroversão, que cria a unidade e o equilíbrio no interior desta unidade.

Sua tarefa não se resume apenas à regulação do equilíbrio, mas apresenta um caráter produtivo, uma vez que faz parte da natureza do organismo não só preservar a totalidade e o seu status, com a ajuda de regulações compensadoras, mas também se desenvolver. Ou seja, progredir para totalidades mais complexas e maiores, no sentido de fazer o mundo experimentado e experimentável com que entra em contato, aumentar progressivamente.

A centroversão atua de forma a impedir que o Ego fique estagnado como órgão do Inconsciente, impulsionando-o a tornar-se cada vez mais o representante da totalidade.

Em busca de sua auto-regulação, a psique traz para a Consciência o movimento de Centroversão. Há uma constatação do processo de individuação e o Self é, então, experimentado como centro psíquico da personalidade. Neste percurso, o Ego é exposto a um processo um tanto doloroso que, começando no Inconsciente, permeia toda a personalidade.

... no fenômeno da segunda metade da vida, se chegaria a uma segunda fase do desenvolvimento pessoal da centroversão. Enquanto a sua fase inicial levou ao desenvolvimento do Ego e à diferenciação do sistema psíquico, a segunda leva ao desenvolvimento do Self e à integração do sistema psíquico. No processo de transformação, que segue o sentido oposto da primeira metade da vida, não ocorre, contudo, uma dissolução do Ego e da Consciência, mas, pelo contrário, uma ampliação por meio da ação auto reflexiva do Ego .

Assim, num primeiro tempo,

... a unidade do todo é mantida por processos compensatórios que a centroversão controla, processos com a ajuda dos quais o todo se torna um sistema auto-criador e em expansão.

Num estágio posterior, a centroversão se manifesta como um centro diretivo, isto é, como centro de consciência no ego e como centro psíquico no Self .

Sendo o Self o arquétipo central, a ele estão subordinados todos os demais dominantes arquetípicos.

Ele é denominado Self Corporal nos primeiros meses de vida da criança. Num primeiro tempo, o Self é experimentado num processo projetivo que tem como alvo as figuras parentais, daí, no dizer de Edinger , “ a fase inicial do eixo Ego-Si Mesmo pode ser idêntica ao relacionamento pais e filhos ” .

Já na visão de Fordham o Self é considerado como sendo, num primeiro momento, psicossomático. É o “ arquétipo originário da infância”, também denominado de Self Primal Original ” – uma unidade psico-física, ou a “ representação da totalidade da psique-soma ainda no estado germinal ” . Nele está contido todos os potenciais psicofisiológicos. Dele, tal qual a visão de Neumann , todos os Arquétipos brotam.

Na visão de Fordhan

O Self original ou primário da criança sofre uma ruptura radical ao nascimento, quando a unidade psique-soma é inundada por estímulos que dão origem a uma ansiedade prototípica. A seguir um estado de reestabilização se estabelece. Durante a maturação, seqüências de rupturas e reequilíbrios ocorrem. As forças motivadoras que garantem tais seqüências são chamadas de de-integrativas e re-integrativas .

Assim, há um estado uniforme de integração no Self Original, no qual tanto a Psique como o corpo, se desenvolvem através de deslocamentos das funções deintegrativas e reintegrativas.

À medida em que as seqüências deintegrativo-reintegrativo vão ocorrendo, os resultados de seu funcionamento se tornam estáveis e, enquanto a imagem corporal se forma – e com ela a percepção mais nítida do que está dentro e fora do corpo – desenvolve-se na criança a percepção de si mesma e do mundo exterior .

Para ele, há fortes indícios de que já na vida intra uterina essas seqüências se façam presentes, de forma que os períodos de atividade, de movimento do feto, seriam indicativos de deintegração. Já os períodos de inatividade, de sono,seriam de reintegração.

Para Fordham as percepções sensoriais, as sensações, são resultantes de um deintegrado do Self total, no qual todas as modalidades de sensações seriam distinguidas apenas de forma parcial, uma vez que o Self Primordial não pode ser representado, mas sim seus deintegrados. Somente a partir destes é que se pode fazer inferências a respeito do Self.

No nascimento o Self se deintegra no intuito de adaptar-se às mudanças externas. Logo em seguida, reintegra-se, no contato pele a pele com a figura materna.

Também na amamentação ocorreram novas deintegrações e reintegrações: ao tomar o mamilo na boca e começar a sugar, a criança vivencia a totalidade, projetando no seio o seu mundo total. Ocorre, então, uma deintegração, seguida por um estado de sono, onde ocorre a reintegração.

Como a amamentação, todas as experiências de cuidados com o bebê, como ser alimentado, tomado nos braços, afagado, banhado, limpo e trocado, admirado, assim como as sensações boas e ruins que chegam estão vinculadas diretamente a ação do adulto para com ele, bem como a sua experiência exploratória do mundo (olhar ao redor, evacuar, urinar), tudo isso leva a processos deintgrativos, seguido de reintegração, pois colocam em ação os sistemas sensórios e motores, fornecendo material para o crescimento do Ego.

Fordham enfatiza a importância da figura materna, que ao cuidá-lo, relaciona-se diretamente com o seu Self, reconhecendo-o através de sua identificação para com ele (identificação projetiva).

Aponta também para a forma como a criança se apropria do que recebe, colocando que desde sempre a criança reage à figura materna, identificando-se e interagindo com a mãe, na projeção de partes suas, que depois serão por ela introjetadas e assimiladas.

AS FASES DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL E A UTILIZAÇÃO DA ARTETERAPIA

No trabalho com crianças, torna-se indispensável observar, avaliar e diagnosticar qual momento do desenvolvimento psicológico corresponde ao comportamento apresentado pela criança.

OURÓBOROS:

Em psicoterapia as crianças nesta fase são bebês ou aquelas que apresentam um grande atraso no seu desenvolvimento global: sensorial e motores.

O trabalho focaliza o universo sensorial enfocando a Estimulação Essencial. As atividades utilizadas envolvem técnicas diversas que levem ao conhecimento e à consciência corporal. Pode-se citar aqui percursos de massagem – entre as quais destacam-se a Massagem de Borboleta, de Eva Reich e a Shantala - e o toque. Pode se utilizar aqui óleos essenciais e trabalhar com aromas diferentes, observando seus diferentes potenciais e a demanda do bebê.

O trabalho em cima de rolos de espuma, plásticos ou com panos que permitem o balanceio e o deslocamento, também são interessantes. A água, a diferentes temperaturas, também é bastante interessante neste momento, uma vez que provoca diferentes sensações corpóreas.

O uso de músicas pode acalmar ou excitar a criança, pois a música atua a nível inconsciente, causando diferentes reações. Há grande interesse em caixinhas de música e em objetos que produzem sons ao serem manuseados, como o chocalho, guizos e sinos.

No contato com brinquedos, a criança leva-os à boca. É interessante ter mordedores de diferentes formatos, que possibilitem também a exploração de temperaturas diversas.

Durante o primeiro ano de vida, o próprio corpo constitui um elemento de brinquedo. É interessante levar a criança a sentir diferentes texturas no seu corpo. Ela se interessa por cores, formas, escutar sons e canções, apalpar objetos. Mais para o final dessa fase, a criança começa a controlar seus movimentos, coordenando-os com a visão. É interessante ter bolas e brinquedos que rolem, trazendo a possibilidade de criação de vínculo e do olhar.

Ela agora produz sons, balbucia e repete seus próprios sons. Ritmos feitos com instrumentos podem ser utilizados para chamar a atenção da criança ou para acompanhar algum movimento espontâneo.

DINÂMICA MATRIARCAL

A entrada nesta fase tem como marco o início do processo de diferenciação eu-outro. Como na fase anterior, o próprio corpo é um elemento de brinquedo e de prazer, a pintura sobre o corpo, a experimentação de texturas, a água com temperaturas diferentes são também utilizadas. O uso de massagens continua sendo bastante indicado.

A criança agora passa a arremessar os brinquedos ao chão, para em seguida recuperá-lo, através das mãos do adulto, experimentando a possibilidade de perder e de recuperar o que ama. Mais tarde, com o deslocamento no espaço, primeiro engatinhando e depois através do andar, ela amplia seu campo de ação, possibilitando aproximar-se e afastar-se voluntariamente dos objetos que deseja. Agora ela própria pode esconder-se e aparecer, entrar e sair por detrás de objetos. Os túneis de panos em cores claras lhe são bastante atraentes, pois pode entrar de um lado e sair do outro, reencontrando assim o seu meio e o adulto que a aguarda.

Mais tarde, uma nova descoberta modifica sua interação com os brinquedos. Ela percebe que algo oco pode conter objetos. Descobre o entrar, o receber, o unir e o separar. São brinquedos apropriados: argolas, brinquedos de borracha, bonecos de bichinhos que fazem sons aos serem manuseados, bonecos e brinquedos de corda que se deslocam sozinhos produzindo ou não sons, bonecos e bichinhos tipo almofadinha, bolas de pano, macias e coloridas, cubos plásticos, tapetes emborrachados, jogos de encaixe grandes, blocos de construção grandes e leves macios ou emborrachados, túneis feitos com bambolês em tons claros, caixas e potes fáceis de abrir que escondam algo dentro, tamborzinho plástico.

Os primeiros contatos com materiais de artes plásticas podem acontecer nesta fase. Neste momento, ainda não há a consciência de que o lápis deixa um risco na superfície, de forma que a criança brinca com este, mas sem a consciência do risco e do traço. Mesmo quando lhe é dado um espaço específico, ela sai do papel. Sua primeira forma de desenho denomina-se Garatuja Desordenada. Inicialmente observa-se traços para todas as direções. Ainda não há noção do campo total do papel. É comum o traço se expandir tanto que sai do papel. Daí ser importante dar a criança folhas grandes.

Crianças com idades mais avançadas que ainda estão fixadas a esta fase, plasticamente, encontram-se na fase de Garatuja Desordenada, quando ainda não há uma consciência do material plástico e do risco deixado sobre as mais variadas superfícies.

No final desse estágio, no desenho, a criança já é capaz de controlar seu movimento, buscando limitá-lo ao tamanho do papel. Ela tem a consciência de que o lápis deixa um traço sobre a superfície e experimenta este movimento das mais diversas formas. Suas garatujas representam, então, uma nova qualidade. Passa para a fase da Garatuja Controlada.

Ao utilizar tintas, a criança preocupa-se em espalhá-la, cobrindo a superfície com as cores. Posteriormente, a criança passa para a fase de Garatuja Identificada. Pode-se perceber nitidamente a entrada nesta fase, observando a criança a falar de seus desenhos, atribuindo nomes às suas garatujas.

Com o passar dos tempos, a criança usa diferentes tipos de movimentos em suas garatujas e, quando desenha, fala e conta histórias, embora sem ligação visual. A criança explica seu rabisco de várias formas.

No final desta fase, aparecem, então, as primeiras linhas circulares, que são movimentos executados com todo o braço. Surgem, então, espirais e caracóis, que nascem de dentro para fora e de fora para dentro.

A criança agora desenha a sua primeira forma: o círculo, marcando a percepção de si como ser independente, visto que “ ... a forma é a expressão externa de um significado interno ” . Símbolo do Self, o círculo representa a totalidade psíquica. Trás nessa representação a noção de continuidade, estabilidade e moviment

.No uso de tintas, seu propósito é deixar marcas, as quais pode ou não atribuir algum significado. As técnicas de criação de carimbos com tintas são bastante apreciadas pelas crianças neste período. O interesse maior é carimbar diferentes suportes e o próprio corpo. Muitas vezes a criança tem interesse em se pintar e gosta imensamente de passar a tinta em seu próprio corpo.

Neste período, o trabalho com artes plásticas em psicoterapia envolve alguns materiais convencionais, como: papéis leves e grandes, em diferentes formatos e texturas; lápis tipo tijolinhos de cera ou giz de cera grossos e gordos; tintas fluidas, laváveis, vivas e não tóxicas, ou tintas confeccionadas com pigmentos naturais; papéis coloridos (para amassar, rasgar e colar); gravuras grandes, coloridas e de temáticas simples; sucatas grandes; pedaços de espuma grandes de diferentes formatos; retalhos de tecidos grandes; areia para manuseio ou colagem (caixa de areia - com ou sem água - ou cola colorida caseira).

Os materiais devem poder propiciar um contato estreito, podendo ser amassados, mordidos, colocados no próprio corpo, permitindo assim seu reconhecimento e ter seus significados e símbolos compreendidos através do movimento, da manipulação e de todos os canais sensoriais.

. As massas caseiras e comestíveis podem ser confeccionadas em diferentes níveis de plasticidade, de mais maleáveis para menos maleáveis, sendo mais indicadas do que a plastimóvel (massinha de modelar comum), que são tóxicas e duras.

As superfícies para a realização dos trabalhos plásticos devem ser grandes e amplas, não restringindo-se apenas ao papel. As crianças ainda necessitam bastante de um espaço gráfico (superfície) amplo.

No trabalho corporal, podem se introduzir objetos diversos que são utilizados na relação com o próprio corpo: caixas grandes, almofadas, bolas grandes.

No que se refere ao uso de histórias, a criança, no início desta fase, se prende ao movimento, ao tom de voz e não ao conteúdo do que é contado. Ela permanece atenta ao movimento de fantoches e objetos que conversam com ela. As histórias devem ser rápidas e curtas. O ideal é inventá-las na hora.

. A criança neste período necessita pegar a história. Quer segurar o boneco, agarrar o livro etc... Logo os materiais devem ser resistentes, para que possam ser jogados no chão, segurados pela criança, levados a boca e fáceis de serem manipulados, para que ela possa brincar com eles.

Os livros de pano e plásticos, são ótimos para serem manipulados. Estes devem ter somente uma única gravura por página, mostrando coisas simples que façam parte do universo da criança. Com a ajuda do adulto ela é capaz de nomear o que vê.

Posteriormente, prende-se a histórias curtas e rápidas, isto é, com pouco texto, um enredo simples e vivo, poucos personagens, se aproximando ao máximo das vivências da própria criança. Devem ser contadas com muito ritmo e entonação. Histórias de bichinhos, brinquedos, seres da natureza humanizados, são de grande interesse da criança.

Há também interesse pelas lengas-lengas (história de enredos de acumulação repetitiva, onde troca-se apenas uma palavra ou outra), que permitem a assimilação do conteúdo na repetição do texto.

O trabalho com música envolve a pesquisa dos gestos e dos sons. A criança poderá encadear gestos para produzir sons e ouvir música expressando-se corporalmente. A imitação natural ocorre espontaneamente, sendo muito importante para o desenvolvimento sensório motor e da linguagem falada. Envolve também a exploração livre de instrumentos musicais simples: chocalhos, tambores, guizos, violinha, xilofone, também despertam o interesse da criança e são fáceis de serem manuseados por ela.

Na atividade lúdica, tudo o que existe ao redor da criança tem vida para ela. Qualquer coisa é facilmente transformada em brinquedo. Bonecos e bonecas dos mais diversos materiais permitem a vivência do amor e dos maus tratos, possibilitando a representação da relação ente ela e as figuras parentais.

Destaca-se nesta fase as miniaturas do mundo adulto: mobílias do seu tamanho (telefone, fogãozinho, carrinho de boneca, bercinho, vassouras e rodas pequenos etc.); conjuntos de utensílios domésticos em miniatura resistente. É interessante ter bonecos com sexo marcado e representantes da família: pai, mãe, bebê, menino, menina, avô, avó.

DINÂMICA PATRIARCAL

As vivências terapêuticas nesta fase induzem ao reforço da identidade, à força, ao poder, à motivação, à capacidade e à coragem. Os jogos e brincadeiras corporais se dão na posição ereta. O corpo é disciplinado de acordo com regras e tipos de movimentos específicos.

Aqui há uma diminuição pelo interesse experimentação corporal, de forma que a criança não tem mais a necessidade de submeter ao próprio corpo os materiais e brinquedos que a rodeia, já sendo capaz de explorá-los de forma concentrada e minuciosa.

A criança necessita experimentar sua força e capacidade de ação no mundo. É interessante o uso de objetos que possam se usados para soltar a raiva e a agressividade, socando, chutando, batendo. O mesmo pode acontecer com as bolas que podem ser perseguidas, apanhadas, golpeadas, arremessadas, cair em buracos e cestos, passar entre balizas.

Todos os jogos de luta e combate fazem parte deste momento.

No uso do espaço, pode vivenciar obstáculos a serem ultrapassados, pelo salto, ou arrastando-se por baixo destes.

Neste período, a criança pode deter-se a um objeto para modelá-lo, pintá-lo, combiná-lo com outros ou transformá-los.

Consegue facilmente alternar funcionamentos como encaixar, colar, armar, construir, modelar, estabelecer estruturas, compreendê-las e transformá-las.

Na representação plástica, passa por várias fases.

Quando adentra o universo patriarcal, a criança adquire a noção de si mesma, passando a operar, interferir, representar, estabelecer analogias, semelhanças e diferenças. Torna-se capaz de extrair do fundo móvel de suas sensações elementos mais permanentes. Passa da ação em si à noção de si, da percepção indiferenciada à capacidade de emitir conceitos. Chega à fase Pré-Esquemática.

Aqui, junta-se ao movimento do círculo outras formas geométricas, trazendo o dinamismo (triângulo) e a instabilidade (triângulo apoiado sob uma de suas ápices); o equilíbrio e a imobilidade (quadrado, retângulo). Aparecem também as representações com duas perpendiculares: horizontal e vertical, posteriormente, as linhas oblíquas (ângulos).

Tais representações (diagramas básicos no dizer de Kellogg), somam-se ao círculo e vão se combinando e se agregando, superpõem-se, ora ficam dentro, ora fora, ora crescem, ora diminuem. Configuram as primeiras figuras representadas pela criança.

Trata-se da representação de formas soltas e dispersas no papel. A incapacidade de relacionar os elementos no espaço é típica desta fase. Seu desenho é realizado em etapas; parte por parte até formar uma figura. A criança, porém, consegue hierarquizar o espaço, dividindo-o e separando seus elementos.

O uso de formas concretas traz diferentes conteúdos que são constantemente modificados na mudança das formas representadas. Pode-se observá-los tanto na utilização de materiais lineares como no uso de tintas.

As relações de tamanho (pequeno e grande) e de posição (em cima, em baixo, no meio) são retratadas no espaço.

No trabalho com a modelagem, seja na utilização de argila ou de qualquer outro material, observa-se a bidimensionalidade: figuras que se apóiam na superfície, ficando “deitadas” sobre ela.

No que se refere a materiais plásticos, podemos destacar: giz de cera grande e grossos, giz de cera aquarelável, colas coloridas, tintas para pinturas a dedo, massa artesanal de modelagem, argila, papéis brancos (que podem ser reduzidos ao tamanho A3, papéis coloridos, gravuras, sucatas média à grandes, caixa de areia com miniaturas.

É interessante trabalhar com folhas grande verticalizadas, presas em parede ou em cavaletes.

Um pouco mais à frente, a criança aprimora suas formas e, passando para a fase Esquemáica.

Esta é marcada por uma tomada de posição frente o mundo exterior. A criança já tem um conceito próprio do que está ao seu redor, que será modificado por novas experiências.

Usa-se da realidade como ponto de partida para o imaginário. Isso se evidencia nos desenhos através de uma ordem definida do espaço.

O conceito definido da figura e do meio é representado através do “esquema puro”, que não expressa nenhuma experiência intencional. A riqueza do esquema, os detalhes, dependerão da personalidade de cada criança e da passagem pelas etapas anteriores.

Modifica a sua forma de desenhar, passando a representar um todo integrado, marcado pela continuidade da linha de contorno.

A ordem definida das relações espaciais é representada pela linha de base ou linha terra, simbolizando tanto a base onde as coisas são colocadas, como a superfície do terreno. Não é um símbolo rígido e também sofrerá mudanças devido a experiências emocionais. A criança pode trocá-la pela borda do papel, omiti-la ou desenhar mais de uma. Nesse caso, ela freqüentemente usa uma linha de céu para cada linha base. Esse recurso é muito usado quando ela expressa uma ação em movimento.

Aqui a criança vincula a cor ao objeto, de acordo com as convenções e organizações pré-estabalecidas.

Um recurso bastante utilizado neste momento é a Dobragem, quando a criança desenha de um lado e do outro da folha de papel ou pinta, fecha a folha e abre-a. Dessa forma expressa a visão de um lado e de outro da cena, colocando as figuras perpendiculares à linha de base, em oposição, fazendo com que algumas figuras fiquem de cabeça para baixo.

Também o desenho Raio X, onde se desenha o que imagina estar dentro de uma determinada forma, é bastante utilizado.

Na modelagem, surge a tridimensionalidade: formas que se apóiam sobre outra que se apóia na superfície.

Recortar, colar e sobrepor se adequam a este momento. Recortar é dar forma, requerendo coordenação motora e paciência. É interessante utilizar vários tipos de espessuras nos papéis para esta atividade, assim como tesouras com lâminas variadas.

Os materiais plásticos indicados para esse momento focalizam a expressão linear. Assim, utiliza-se lápis preto, borracha, pastel óleo, aquarelas, colas coloridas, tintas guaches, hidrocor, argila e massa artesanal de modelagem, papéis brancos A3, papéis coloridos, materiais diversos para colagem (naturais, sucatas, tecidos, barbantes, contas, purpurina etc.).

Agora a criança tem condições de criar junto, dividindo o espaço gráfico com outras crianças.

Com o desenrolar do desenvolvimento a criança não mais representa com base na observação visual, mas na realidade sentida e caracterizada por si mesma (chega ao Realismo). Já descobriu o seu meio, não sentindo necessidades de esquemas. ########

Plasticamente consegue conceber planos, sendo capaz de sobrepor as imagens (colocar uma sobre a outra).

Somente agora adquire consciência de superposição. Desenha, por exemplo, árvores que superpõem ao próprio céu, quando antes desenhava uma ao lado da outra.

A representação da figura humana agora é mais rígida. É enfatizada a diferença entre os sexos e há grande preocupação com as roupas. Os exageros e as omissões não são usados, mas as partes emocionalmente mais importantes aparecem carregadas de detalhes.

Aqui, Pode-se usar todos os materiais, mas deve-se evitar os que permitem a expressão linear, pois a criança tende a avaliar os resultados de sua criação, julgando-os pelo modo de desenhar adulto e, por vezes, não quer fazê-lo por não alcançar resultados semelhantes.

O guache e a têmpera preparados pela criança são excelentes, devendo ser apresentados em poucas cores para a descoberta de novos tons.

Nessa fase a criança gosta de colecionar coisas, o que deve ser aproveitado para estimular o contato com o formato, as cores, a textura, mesmo que por meio dos materiais da natureza e da sucata. Apreciam novos materiais como: a anilina, a aquarela, o papier marché, o pastel seco, o gesso.

A atividade plástica agora não é mais uma atividade espontânea. Há um maior desenvolvimento intelectual e uma crescente consciência crítica em relação a sua produção artística.

Assim como nas Artes Plásticas, a criança percorre na Dinâmica Patriarcal diferentes fases tanto no brinquedo, como nos demais canais expressivos.

No trabalho com contos e histórias, já há um maior desenvolvimento da linguagem e, à medida que a criança cresce, esta se torna cada vez mais evoluída, de forma que a criança tem sua capacidade de reter a atenção aumentada e solicita enredos cada vez mais elaborados.

As histórias inicialmente devem ter poucos personagens e serem de fácil entendimento. Há ainda muito interesse por histórias com músicas e de repetição acumulativa. As gravuras ainda devem ser grandes e com poucos detalhes.

Histórias com dobraduras simples que a criança possa acompanhar, também exercem grande fascínio. Outro recurso que prende muito a atenção é a transformação do contador de histórias com roupas e objetos característicos criança acredita que o contador de histórias realmente se transforma em personagem com a colocação de uma máscara, óculos, chapéu etc..

Posteriormente, perto dos sete anos, a criança ou está aprendendo a ler ou ainda não possui um bom nível de leitura, interessando-se pelas histórias contadas na fase anterior.

Já não há necessidade de pegar a história, ela se contenta em apenas VER.

Gosta de visualizar o que é dito e observar gravuras bem feitas em livros, flanelógrafos, cartolinas, quadro de pregas, sanfonas, cineminhas etc.. Acompanham bem quando o terapeuta desenha, faz dobraduras ou se transforma.

Nessa fase a criança se interessa por detalhes. As histórias devem ser mais extensas e descritivas. As gravuras bem elaboradas e detalhadas.

Mostram interesses por histórias com animais humanizados, encantamentos, aventuras no ambiente próximo (família, escola, comunidade).

Em torno de oito/nove anos os enredos mais elaborados e longos entretém a criança. É a fase da descoberta da piada e ela gosta de ouvir e contá-las. As histórias humorísticas e engraçadas exercem grande fascínio. As histórias em quadrinhos também são muito apreciadas.

Os recursos materiais já citados ainda são de interesse desta fase.

Quando entra na pré-adolescência a criança já mostra interesse em ler a história sozinha. Mas, normalmente prefere ouvir alguém contar e acompanha a história com grande interesse.

Os quadrinhos ainda são muito apreciados. Exigem muitos detalhes e um texto bem elaborado com diálogos e cenas bem descritas.

Às vezes mostram interesse por histórias que já conhecem, mas a novidade é sempre muito atraente. Consideram os fantoches bobos e infantis (a menos que estes sejam muito elaborados).

Nesse período começa a se interessar por temas ligados à realidade social, ficções fantásticas e grandes aventuras narrativas de viagens, explorações, invenções e fatos reais.

Os mitos, fábulas e lendas, também despertam o interesse. Não têm necessidade de ver a história, pois já conseguem imaginá-la com grande riqueza de detalhes. Gostam simplesmente de ouvir a narrativa, com vozes diferentes para cada personagens e entonação.

A criança inventa histórias com grande facilidade. E quando o faz, projeta algo de sua vida, falando de algum tema que é importante para ela.

Ao pedimos a criança para dar outro final, ou fazemos perguntas que a levem a continuar a história com um novo desfecho, estamos induzindo-a a repensar sobre a temática e a solução dada por ela para finalizar a história.

Quando damos outro final para a história da criança, estamos apresentando a ela novas soluções e possibilidades que às vezes não lhe ocorreram e que ela não consegue enxergar.

Algumas crianças ao invés de inventar uma história quando isso lhe é proposto, reconta uma história que leu, que alguém lhe contou ou que viu no cinema ou na televisão. A escolha da criança por esse personagem ou história, ocorre porque a atraiu de alguma forma e sempre ela reconta a sua versão, modificando algumas coisas. É importante sabermos tudo o que pudermos sobre os personagens e histórias que as crianças gostam e escolhem. Assim, podemos entender por que ela se identificou com eles.

Várias são as técnicas para ajudá-la nesse processo, tanto individual como coletivamente. Entre estas destacam-se: pedir para contar uma história para um desenho,. contar outra história com um livro ou gravuras,. dar outro final para a história,. dar os personagens e pedir para criar uma história com eles, contar uma história sobre um animal, objeto ou lugar,. contar uma história contendo determinado conteúdo,. falar sobre um lugar e pedir para contar uma história acontecendo ali,. criar uma história partindo de várias palavras dadas.

Uma outra técnica bastante atraente consiste em gravar as histórias que a criança conta para depois dramatizá-las e/ou conversar com a criança sobre ela, principalmente se o trabalho não se encerra no mesmo dia em que começou. Em geral, as crianças não têm dificuldades em inventar ou relatar histórias, mas não gosta de escrevê-las.

No trabalho com música, no início da Dinâmica Patriarcal, ainda há grande interesse pelos instrumentos de bandinha rítmica, assim como em brincadeiras com a utilização da música.

A criança aprecia a brincadeira de roda ou os jogos cantados. Estas desenvolvem a fala, a linguagem em geral, a coordenação motora, o esquema e a consciência corporal, a lateralidade, o equilíbrio, a orientação temporal e espacial, além de preservar a nossa cultura.

Há uma progressão no controle da voz. Participa com facilidade de jogos cantados simples. Interessa-se muito por dramatizar canções. Cria pequenas músicas durante as brincadeiras, cheia de conteúdos simbólicos.

Aos poucos passa a entoar mais facilmente e consegue cantar longas melodias inteiras. Reconhecendo e gostando de um extenso repertório musical

Um pouco mais tarde torna-se capaz de criar sonoplastias para histórias e peças com muita facilidade.

Próximo a pré-adolescência, gostam de trabalhar com bandas. Já conhecem e gostam de uma grande variedade de estilos musicais e começam a usá-los em suas atividades

Costumo associar música à histórias, pedindo para a criança escolher um fundo musical para uma história por ela escolhida, contada ou sugerida por mim. Também associo músicas a sentimentos e movimentos ou a forma de se expressar de um personagem. Muitas vezes, coloco uma música e peço que ela deixe chegar imagens a ela relacionadas e depois desenhe-a.

. A atividade lúdica vai se transformando a medida que a criança cresce dentro da Dinâmica Patriarcal. Ao entrar nesta fase, a criança ainda brinca imitando atividades que vivencia e conhece. Esse tipo de atividade lúdica é conhecido como jogos imitativos ou objetos de imitação.

Nesse período há interesse também por brinquedos de construção (blocos de construção, castelos de areia, jogos de encaixe etc.).É comum haver uma mistura entre aquilo que é considerado representativo e de construção (Exemplo: fazer um castelo de areia onde moram um príncipe e uma princesa).

Os brinquedos citados na fase anterior ainda despertam seu interesse. Observamos, porém, uma maior capacidade de simbolização. Por volta dos 6/7 anos, os jogos simbólicos começam a declinar. Ao aproximar-se mais do real, o brinquedo e o brincar acabam perdendo parte de seu caráter de deformação lúdica para chegar mais perto da imitação da realidade. As construções lúdicas começam a ordenar-se de forma coerente.

Em geral a criança sente necessidade de organizar o espaço da brincadeira, para depois iniciá-la. Pode, por exemplo, dividir o espaço do consultório colocando ali os cômodos da casa: quartos, sala, cozinha etc, com seus respectivos móveis.

Às vezes, este processo é utilizado como mecanismo de defesa no processo psicoterápico: a criança passa o tempo todo arrumando o espaço para iniciar a brincadeira, mas “não brinca”.

À medida em que se desenvolve, torna-se possível à criança comparar os resultados da brincadeira planejada com a ação, propiciando uma contínua busca dos meios que a tornem exeqüíveis. Paralelamente ao reconhecimento da realidade, o pensamento egocêntrico cede lugar ao comportamento social.

Por volta dos 7-8 anos, surge a possibilidade de utilizar o símbolo de forma coletiva. O símbolo partilhado, assim, coletivamente, transforma-se mediante a nascente possibilidade de cooperação em jogos de regras. O interesse principal passa a ser o social. Desenvolve a necessidade de entendimento mútuo no domínio de regras que passam a ser codificadas no relacionamento da criança que joga.

. Ela agora já é capaz de brincar em grupos. Está apta a obedecer regras e esperar sua vez.

Há uma certa divisão de sexos no brinquedo, pois meninos e meninas não se interessam pelos mesmos brinquedos.

Os meninos agrupam-se para jogos movimentados e as meninas são mais sedentárias, preferindo brincar, por exemplo, de casinha e escolinha. Pode-se atribuir tal escolha basicamente a influências de nossos padrões culturais

Com relação às regras, as crianças, nessa fase, compreendem que elas existem porque todos concordam com elas e podem ser mudadas se todos concordarem.

Os brinquedos que marcam a Dinâmica Patriarcal são os jogos, tanto os vinculados à área motora, como os ligados ao raciocínio lógico, pois trazem as regras e normas que devem ser seguidas.

Acrescenta-se aqui jogos variados, como: bingo, baralho, jogo da memória, baralho Mico-preto, quebra-cabeças, dominó de cores, números, operações matemáticas simples, letras, sílabas e palavras, forca, jogos de seqüência lógica, gamão, xadrez, ludo, dama, senha, jogo da velha, adivinhas.

Na área motora pipas, peteca, as Cinco Marias, bolas de gude, pular elástico, frescobol, dominó de pano com encaixe de botão, de pressão, de colchete, velcro etc.; alinhavos, sinuquinha.

Há interesse também em jogos que exigem maior movimento, como jogo de boliche, argolas, acertar a bola na boca do palhaço, pranchas de equilíbrio, jogos diversos com bolas entre outros.

Nos materiais citados acima, o grau de dificuldade vai se aprimorando, na medida em que o raciocínio lógico e o desenvolvimento motor aumentam.

O interesse pelas miniaturas aumenta bastante neste momento. A criança gosta de montar cenas com elas e se interessa bastante pelo trabalho com caixa de areia.

Outra atividade bastante interessante neste período, a construção de brinquedos simples pela própria criança com sucata, com a ajuda do terapeuta. Crianças nesta fase gostam de montar e desmontar coisas, construir e ordenar de novas formas.

No que se refere ao trabalho teatral há grande interesse em se fantasiar. A criança se utiliza de máscaras e fantasias para a criação e caracterização dos mais diversos personagens.

Neste momento basta fornecer à criança elementos para sua caracterização: roupas, objetos, fantasias, máscaras e maquiagem e acompanhá-la em sua própria produção.

Faz-se importante ressaltar que a escolha do personagem e sua forma de atuar, por si só já falam de sua vivência e emoção.

Ao ser deixada livre para expressar-se, a criança imita aquilo que lhe é mais significativo, dramatizando situações que lhe são familiares (animais, pessoas, cenas cotidianas).

No uso de bonecos é interessante possuir uma variedade de bonecos para que a criança possa brincar e criar suas próprias histórias, permitindo uma rápida identificação com várias partes de si mesma: a parte boa, a parte má, a angelical, a raivosa, a regredida, a sadia. Assim, esta poderá resolver conflitos internos, equilibrando e interligando muitos aspectos de si mesma.

Os fantoches e bonecos levam a criança à descoberta de inúmeras potencialidades da voz.

No trabalho com grupos de crianças, a técnica do Psicodrama Pedagógico trás a delimitação física – espaço protegido para se mergulhar no personagem – e a delimitação da ação – congelamento da cena.

Ao mesmo tempo permite a livre criação na atuação. Embora escolha-se previamente os personagens, após caracterizado, este pode ser interpretado da maneira que o sujeito quiser. Ações e falas inesperadas são marcadas pelo diretor da cena (facilitador ou terapeuta), mas deixa-se ao sujeito a escolha de manter-se no personagem ou alterá-lo, trazendo o inesperado para o grupo.

Vale ressaltar que o pré-adolescente gosta bastante de trabalhar com RPG, que é um jogo que trás um extenso processo de criação de personagens e situações. Estes também podem ser adaptados e explorado cênica e plasticamente, trazendo muitos materiais que podem ser analisados e remetidos às necessidades e à história da criança que os criou.

No trabalho com máscaras, pode se utilizar de máscaras prontas de diferentes modelos e materiais. Cabe à criança escolher com qual deseja trabalhar. Aqui a escolha implica num processo psíquico de aceitação e recusa. Conteúdos são projetados sobre as máscaras e, de acordo com estes, algumas fascinam e outras causam profunda repulsa. Tal escolha pode se dar tanto para uma proposta de construção de personagem, encenação, expressão corporal, imaginação ativa ou escrita espontânea.

A construção da máscara para o jogo teatral é também bastante apreciada. Esta pode ser feita com massa de sabonete, papier marché, biscuit, papelão, entre outras. É interessante focalizar a escolha e a construção da máscara para a representação de um determinado tema ou a que melhor se encaixe na vivência de uma situação prévia.

Dependendo das demandas trazidas, algumas técnicas são bastante interessantes com crianças após oito anos e pré-adolescentes: Confecção do Genograma (com máscaras, cores, objetos, animais etc.), Linha da Vida (com fotografias – principalmente com crianças pequenas, músicas – com pré-adolescentes, recortes de revista), Representação de Cena em Caixa de Areia, Construção tridimensional do espaço da casa em que mora e colocação dos respectivos familiares através de bonecos, Colagem de Fotografias da criança e de outro parente, com desenhos, histórias, músicas e colagem que caracterizem a relação, Criação de Personagens para histórias ou representações,- Maquetes, construções mais sofisticadas, Foto Simbólica: que se assemelha ao trabalho de escultura, que pode ser feita com miniaturas ou com a participação do núcleo familiar na sessão.

CONCLUSÃO

Na abordagem Junguiana, a criança passa por estágios de desenvolvimento, partindo de uma indiferenciação total, estado Ourobórico, seguido do Matriarcado, onde começa o processo de diferenciação eu- outro, chegando ao Patriarcado, ao despertar da consciência, onde a criança começa a assimilar as regras e começa seu convívio social.

A Arteterapia auxilia a criança a passar por estes estágios de desenvolvimento. A linguagem não verbal da Arteterapia tem acesso a esse mundo infantil, ajudando a criança a desenvolver seu universo sensorial, sua consciência corporal, sua capacidade de representação e construção. Desta forma a criança materializa seus conteúdos emocionais, confrontando-os e os fazendo interagir para, finalmente, internaliza-los, elaborando seu mundo interno e seu mundo externo.

 

LIGIA DINIZ

Psicóloga - CRP 1900-RJ

Arteterapeuta

Membro Fundador da Associação de Arteterapia do Rio de Janeiro

Pós- graduada em Psicologia Junguiana

Membro Trainée do Instituto Junguiano do Rio de Janeiro

Bacharel em Artes Cênicas

Facilitadora de Cursos de Formação em Arteterapia de Base Junguiana no Rio de Janeiro e em Porto Alegre

Facilitadora de Terapia Corporal em Biodança.

 

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