ARTERAPIA NA PSICOSSOMÁTICA
REVISTA IMAGENS DA TRANSFORMAÇÃO
Nº 9 VOL. 9 2002.



RESUMO:

Este artigo tem como objetivo mostrar a eficácia da arteterapia no referencial da psicologia junguiana, no tratamento de pacientes com manifestações psicossomática. Embasamos nosso trabalho na afirmação de que todo represamento do fluxo da libido redundará em sintomas, sejam eles somáticos ou psíquicos; sendo que os sintomas físicos são vistos como símbolos vividos a nível somático.

 

ABSTRACT:

The main purpose of this paper is to show how efficient may be artherapy, in the context of Jung psychology, to treat pacients with psycosomatic symptoms. Our work is based on the assumption that blocking of the libido flux will result in rather somatic or psycho symptoms; moreover, physical symptoms are considered as symbols experienced at a somatic level.

O paradigma Cartesiano tinha como principais características: a extroversão, o materialismo mecanicista, o dualismo, o cientificismo ou positivismo. Tal visão tem suas bases na lógica linear e nos princípios da identidade, da causalidade e do terceiro excluído.

ARTERAPIA NA PSICOSSOMÁTICA

Nessa visão corpo e mente são dissociados: " ... o corpo foi cada vez mais compreendido como uma máquina a ser analisado em suas partes, mente e corpo separados "(1).

Com a evolução científica tem se estabelecido um novo paradigma, o paradigma quântico-Capra.

Esse modelo se caracteriza por ser: finalista, sistêmico, holístico. Nessa visão, corpo e mente formam um todo, que é uma unidade dinâmica.

O modelo holístico de psicologia vai até um nível transpessoal e supõe que a psiquê se estrutura em múltiplos níveis (como de resto toda a realidade): o de Ego, o nível Bissocial, o Existencial e o Transpessoal. Em quaisquer desses níveis, a psiquê é sempre uma totalidade que se auto-regula, fato já afirmado por Jung nos primeiros anos do século XX.

Jung com o princípio da sincronicidade, isto é, relações acausais com o mesmo significado; com sua perspectiva holística do ser humano, sua perspectiva sistêmica, relativista, finalista, espiritualista; a sua própria ética na interpretação dos valores, e sua visão ecológica se torna um precursor do novo paradigma emergente.

Tratando da relação corpo-mente ou psique-soma, Jung explicitou-os dentro da visão unicista colocando essas duas realidades como cara e coroa de uma mesma moeda.

" A Psique e a matéria são aspectos diferentes de uma única e mesma coisa " (2).

A cisão psique-corpo tira vida do indivíduo, tanto física quanto psíquicamente. Quanto maior essa cisão, maior será a nossa capacidade de adoecer.

" Toda e qualquer doença tem uma expressão no corpo e na psique simultaneamente " (3).

Não é mais possível distanciarmos psique e corpo. Ambos formam uma unidade funcional que pode se manifestar simultaneamente tanto na saúde como na doença.

Assim o sintoma físico é um símbolo que expressa uma dissociação e revela um caminho. Trata-se de um apelo do inconsciente que se manifesta corporalmente abrindo uma possibilidade de resgate.

Todo sintoma se coloca como um sinal de alerta de um desequilíbrio de funcionamento da pessoa.

Adoecemos na proporção inversa à nossa capacidade de mentalização e simbolização. Ou seja, quanto maior a elaboração, maior a relação ego-self e consequentemente menor é a somatização.

Segundo Jung (4) todo represamento de fluxo da libido desencadeia sintomas, sejam eles físicos ou psíquicos. A libido na sua polivalência sexual, epistemológica, lúdica, espiritual etc., precisa encontrar espaços de representação e integração no psiquismo.

O paciente somático está mergulhado no corpo real; é preciso deslocar o real p'ro simbólico. No processo de análise destes pacientes é preciso fazer com que o significado seja extraído do físico e vá p'ro psíquico. De forma, que os conteúdos inconscientes que estão na mente e no corpo sejam trazidos p'ro campo da consciência e que sejam elaborados. Quanto mais se amplifica o campo da consciência mais saudável ficamos.

Várias são as possibilidades de trazer para a consciência essa libido reprimida, entre elas destacamos as técnicas expressivas que possibilitam a mobilização da energia através de uma forma simbólica e à medida que toma forma, que se expressa, vai propiciando a visualização dos símbolos facilitando a sua eleboração.

Reafirmamos que o paciente orgânico codifica seu conflito no sistema somático.

O símbolo é a "máquina transformadora" da energia entre diferentes sistemas - orgânico-psíquico - almejando alcançar a consciência.

Jung descreveu vários métodos de amplificação, nos quais pode se realizar a transição entre conteúdos inconscientes, sintomas orgânicos ou emocionais, para o plano consciente, como imaginação ativa, pintura, argila, desenho etc.. Tais recursos são instrumentos da Arteterapia.

O sintoma orgânico corresponde a uma cisão na representação de um complexo, onde a parte abstrata psíquica não chegou a ser desenvolvida ou foi reprimida. A manifestação orgânica da doença como sintoma-símbolo passou a se desenvolver automática e descontroladamente, revelando seu caráter complexo inconsciente.

A Arteterapia auxilia na descoberta e na integração da polaridade abstrata dos complexos envolvidos, ou seja a polaridade que não se fez como representação psíquica. Sabe-se que o processo psíquico desenvolve seu dinamismo por intermédio da imagem simbólica. Para Jung o símbolo é sempre polissêmico, portador de sentido e transformador da psique. Jung recomenda o "andar em torno do símbolo" - o circumbulatio - sem reduzi-lo por interpretação. A Arteterapia, que se utiliza de técnicas expressivas para a amplificação (desenho, modelagem, pintura, dramatização, caixa de areia, entre outras), leva a esse movimento de circunscrever o símbolo sem interpretá-lo, sem reduzi-lo, ao contrário, amplificando-o.

O paciente somático está mergulhado no corpo real, esfera específica do Arquétipo da Grande Mãe, aonde não há representação mental para o sintoma.

O arquétipo da Grande Mãe predomina no universo da criança em seu primeiro ano de vida, período pré-verbal, onde o acolhimento, a nutrição e o conforto físico são fundamentais na organização da personalidade.

Falhas na vivência do arquétipo da Grande Mãe leva a sérias disfunções a níveis arcaicos, como psicose, somatização.

Dentre os aspectos positivos da Grande Mãe ressaltamos a proteção e a decodificação. A proteção implica uma decodificação. A mãe vive p'ro bebê a função transcendente; a de fazer o link entre consciente/inconsciente.

À medida que há falhas nessa função materna, a criança vai cada vez mais deixar de fazer a evolução da função simbólica p'ro nível abstrato e ela vai fixar o símbolo no concreto, no corpo.

A Arteterapia, como se utiliza de técnicas não verbais tem uma sintonia com o arquétipo da Grande Mãe, facilitando ao paciente fazer uma representação mental, ou seja, uma imagem simbólica que possa levá-lo a uma transformação do todo.

" As técnicas expressivas favorecem muito a constelação do dinamismo matriarcal na análise, enquanto que a elaboração racional pode favorecer o dinamismo patriarcal, em detrimento desta vivência básica matriarcal "(5) .

A HISTÓRIA DE MARIA

Maria tem 35 anos, divorciada, com um filho. Buscou psicoterapia na época de sua separação.

Filha caçula, era o xodó do pai, com quem tinha uma relação de muito afeto. Sua mãe era muito autoritária, exagerada e sufocadora. Maria se sentia mais protegida e cuidada pelo pai. Copiava o pai em tudo; endeusava esse pai.

Maria relata que desde criança apresenta sintomas alérgicos, mais frequentemente rinite e asma. Pelos estudos psicossomáticos há uma tendência a explicar que as manifestações alérgicas e a asma normalmente decorrem de uma dificuldade expiratória; não há espaço para soltar o seu ar, a sua vida, o seu ser, o eu genuíno. Há um tolhimento do seu lado vital por excesso de cuidados, de valores que abafam.

Da sua história destaco um dos aspectos que me pareceu relevante na compreensão de sua dinâmica psíquica. O caso de Maria me fascinou por que ele expressa de uma forma visível o aspecto espiritual da libido tão importante no pensamento junguiano.

O pai de Maria era comunista e ateu; sua mãe também. Maria cresceu escutando que Deus não existia: com essa interdição para o lado religioso. Na sua infância nunca entrou numa igreja. Em sua casa, ao contrário dos outros lares, rezar, ir à missa é que transgredia a ordem; pecar num certo sentido, pois iria contra o pai. Obedecer pai e mãe e adorar a Deus, não era possível. Maria lembra que sempre que se sentia insegura, amedrontada, recorria a Deus, escondida em seu quarto. Como não sabia rezar, criava suas próprias orações. Sentia-se culpada por isso e não o revelava a ninguém.

Constata-se desse modo a afirmação junguiana desta realidade intrínseca, arquetípica do componente espiritual da libido.

Na adolescência, Maria acaba por concordar com seu pai que a religião dopava o povo, e aceita o modelo paterno, não acreditando em Deus.

Após mais de um ano de terapia, quando estávamos revendo a figura paterna, Maria teve uma forte reação alérgica: a pele de seus braços e pernas ficou cheia de eczemas e, depois, os eczemas melhoraram, mas a pele ressecou, parecia que estava escamando.

Nesse momento lemos o conto Pele de Foca. Este conto trata da história de uma mulher-foca que tem sua pela de foca roubada e, por isso, aceita casar-se com um homem solitário por algum tempo. Passado um certo tempo sua pele começa a ressecar - descama e racha. Mesmo tendo um filho com este homem, ela se propõe a regressar para seu antigo lar. É, porém, impedida pelo marido que esconde-lhe a pele roubada. Ouvindo um chamado distante, o menino encontra a pele da mãe e a devolve. De posse de sua própria pele, a mulher-foca inicia seu processo de cura e recupera sua verdadeira identidade.

Maria se emociona com a história. Percebe que também ela estava ressecando, pois não estava com a pele que queria. Sua pele não correspondia à sua essência.

Desenhou, então, como se sentia (imagem 1): uma mulher seca. Amplificando esta imagem com uma colagem, Maria se vê mergulhada numa água escura carregada com ancestralidades e conteúdos bastante primitivos (imagem 2).

Nessa época Maria começa a sonhar com padres. Propus que representasse o sonho na caixa de areia. A imagem que surge trás uma cigana ao centro com uma criança. Ela está cercada de animais domésticos e a figura de um padre vindo ao seu encontro.

Retornando a relação dessas imagens à figura do padre, Maria chega à conclusão que o padre é " o pai que acredita em Deus ". Ela estava buscando dentro dela um modelo diferente do modelo paterno.

Por ter um modelo paterno muito positivo, Maria aceitava todos os valores de seu pai sem questioná-los: incorporou uma pele que não condizia com a sua maneira de perceber o mundo. Seu pai não acreditava em Deus, mas ela sim e, portanto, sentia falta desse lado religioso. Embora não quisesse seguir uma religião ou um dogma religioso, queria assumir sua religiosidade. Como houve o represamento do componente espiritual da libido as consequências se manifestaram, quando começou a trabalhar o pai, esse complexo foi ativado causando os sintomas.

A partir do trabalho realizado, ela pôde assumir e vivenciar sua espiritualidade. Pôde, também, perceber outros valores e modelos de comportamento que não condiziam com sua forma de pensar e sentir, mas que eram a " pele " do pai e não a sua. Neste processo, sua pele foi voltando ao normal.

Maria continua nesse processo de descoberta, diferenciando-se cada vez mais do Complexo Paterno.

CONCLUSÃO:

A somatização de Maria pode ser compreendida como uma forma de compensação a uma atitude unilateral da consciência. Ao não querer seguir os dogmas de uma religião, nem ter uma religião formal, Maria reprimiu em si a religiosidade, a fé, seu lado espiritual; seguindo a mesma atitude rígida do pai.

A doença seria assim uma expressão simbólica, uma forma do organismo expressar uma desarmonia entre um desejo e uma resistência. O desejo de amor a Deus, junto com o medo das conseqüências desse amor. Ou seja, medo de perder o amor do pai, de deixar de ser a filha querida do pai.

O símbolo aparece na polaridade concreta, corpórea, como uma reação do organismo: uma compensação que tem como finalidade levar o indivíduo a integrar o reprimido na consciência, religando o Ego ao seu eixo com o Self.

Ao entrar em contato com ele e amplificá-lo é possível se confrontar com seus complexos, integrá-los e corrigir seu desenvolvimento unilateral.

A Arteterapia com base junguiana, utilizando técnicas expressivas, contos, caixas de areia etc., facilitou a transdução dos símbolos de sua polaridade orgânica para a abstrata, levando a paciente a um processo que conduziu a integração dos conteúdos emocionais e à individuação, diminuindo gradativamente a expressão patológica e provocando uma melhora em sua saúde geral.

 

LIGIA DINIZ

Psicóloga - CRP 1900-RJ

Arteterapeuta

Pós- graduada em Psicologia Junguiana

Membro Trainée do Instituto Junguiano do Rio de Janeiro

Bacharel em Artes Cênicas

Facilitadora de Cursos de Formação em Arteterapia de Base Junguiana no Rio de Janeiro e em Porto Alegre

Facilitadora de Terapia Corporal em Biodança.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIA:

(1) BOECHAT, Walter - O Dilema do Corpo/Mente: Novas Abordagens Possíveis - in Cadernos de Psicologia, Rio de Janeiro: USU, v. 3 - 2000.

(5) BYINGTON, Carlos - Uma Avaliação das Técnicas Expressivas pela Psicologia Simbólica , in Junguiana 11 Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica.

CARDOSO, Heloísa - Psicopatologia, Teoria dos Complexos e Psicanálise - Livraria Atheneu Editora, 1993.

CAPRA, Fritjof - The Tao of Physics , Berkeley: Shambala, 1975.

DAHLKE, Rüdiger e DETHLEFSEN, Thorwald - A Doença como Caminho: uma Visão Nova da Cura como Ponto de Mutação em que um Mal se Deixa Transformar em Bem - São Paulo: Cultrix, 1998.

GODDECK, George - Estudos Psicanalíticos sobre Psicossomática . São Paulo: Perspectiva, 1992.

JUNG, C. G. A Vida Simbólica - Obras Completas, Vol. XVIII/2. R.J., Petrópolis: Vozes, 2000.

(2), (3) e (4) JUNG, C. G. - A Natureza da Psique - Obras Completas, Vol. VIII . RJ, Petrópolis: Vozes, 1991.

NEUMANN, Erich - A Criança: Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento Desde o Início de sua Formação . São Paulo: Cultrix, 1991.

PHILIPPINI, Angela Apostila de Arteterapia, 1989.

POMAR - Revistas Imagens da Transformação. Rio de Janeiro: Pomar v.7 e 8, 2000 e 2001.

RAMOS, Denise - A Psique do Coração: Uma Leitura Analítica do seu Simbolismo - São Paulo: Cultrix, 1990

---------------------- - A Psique do Corpo: uma Compreensão Simbólica da Doença - São Paulo: Summus, 1994.

 

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