A REVELAÇÃO DO INCONSCIENTE ATRAVÉS DA ARTE
REVISTA IMAGENS DA TRANSFORMAÇÃO
Nº. 8 - VOL. 8 – 2001.



RESUMO:

Esse artigo visa elucidar a dinâmica atemporal do inconsciente, que atua numa forma prospectiva - com antecipação de acontecimentos futuros, e de uma forma retrospectiva, trazendo conteúdos do passado, mesmo da fase pré-natal. Pretende-se mostrar também que a Arteterapia é um meio eficaz na captação e expressão desta riqueza do inconsciente.

 

ABSTRACT:

This article aims to elucidate the unconscious atemporal dynamics that takes place in a prospective way - with anticipation of future events, and in a retrospective way, bringing psicological contents from the past, even from the prenatal phase. It is also shown how Art Therapy is an effective tool in the reception and expression of this wealth of the unconscious.

“... devo admitir que o inconsciente revela às vezes

uma inteligência e intencionalidade superiores à compreensão consciente

de que somos capazes no momento ”.

C. G. Jung (1)

Tendo o inconsciente uma dinâmica atemporal, ele atua de uma forma retrospectiva, trazendo arquivos da vida pré-natal e/ou outras, como apresento no caso clínico X; também atua de uma forma prospectiva, com a antecipação de acontecimentos futuros, apresentado aqui ,com uma experiência pessoal da antecipação da minha gravidez.

A Arteterapia é um dos meios que possibilita a confirmação da realidade criativa, dinâmica e atemporal do inconsciente.

Segundo Jung o inconsciente não é só o depósito do reprimido e desejos não realizados, mas também traz as marcas das vivências pré- natais e|ou outras. E se manifesta como uma matriz geradora de novos conteúdos numa perspectiva além do tempo e da pessoa.

Ele afirma :

... a priori nada impede de pensar na possibilidade de que as tendências inconscientes tenham um objetivo situado além da pessoa humana, assim como também é possível imaginar que o inconsciente “só sabe desejar” (2).

... o símbolo tem um significado muito complexo, ... pressupõe múltiplos significados. O símbolo tem um futuro. O passado não basta para interpretá-lo, porque germes do futuro estão incluídos em todas as situações reais . (3)

A dinâmica do inconsciente expressa-se por suas imagens através de sonhos, desenhos, fantasias, etc...; modos que são “ auto-representações de desenvolvimentos inconscientes , os quais permitem a expansão gradual da psique “ (4).

Sendo a linguagem básica do inconsciente as imagens, a Arteterapia se mostra um recurso dos mais ricos para a compreensão e integração desses conteúdos à consciência.

A prática da Arteterapia facilita a decifração do mundo interno, o confronto com as imagens que a energia psíquica configura. A compreensão destas formas simbólicas possibilita o confronto com o inconsciente, e a tomada de consciência de seus conteúdos.

A relevância de uso de técnicas expressivas como meio de acesso ao inconsciente nos é confirmada por Jung, onde se conjuga imagem e ação num processo de auto-organização e desenvolvimento, a que ele chamou processo de individuação.

... com a mão que guia o creiom ou o pincel, com o pé que executa os passos de dança, com a vista e o ouvido, com a palavra e com o pensamento: é um impulso obscuro que decide, em última análise, quanto à configuração que deve surgir; é um apriori inconsciente que nos leva a criar formas ... A imagem e a significação são idênticas, e à medida que a primeira assume contornos definidos, a segunda se torna mais clara. (5)

As técnicas psicoterapêuticas articulam-se cada vez mais em direção as vivências

... técnicas corporais para expressar as emoções, técnicas baseadas na imaginação, técnicas plásticas, técnicas oraculares, técnicas produzindo alterações da consciência etc. A busca dos significados simbólicos é desempenhada muito mais pela mobilização dos símbolos, dentro de sua elaboração, do que por sua interpretação racional, mesmo sendo esta levada a cabo através do método das associações livres de Freud ou do método de amplificação de Jung. Parece-me que a capacidade de elaboração racional exclusiva para causar transformação psíquica chegou a seu limite. Se isso assim é, o caminho do desenvolvimento da técnica psicoterápica é o caminho da mobilização da vivência pelas técnicas expressiva (6).

Portanto,

... o analista que se utiliza de vivências, percebe que as fronteiras entre o mundo imaginário e o mundo concreto são mais facilmente transponíveis. Ao observá-las sob a ótica junguiana consegue entender a estrutura e a dinâmica psíquica do analisando, bem como identificar Tipologias. Tem diferentes recursos para ativar símbolos pouco energizados, trazê-los à tona e amplificá-los (7).

Sabe-se que o processo psíquico desenvolve seu dinamismo por intermédio de imagens simbólicas. O símbolo é o mecanismo psicológico que transforma a energia psíquica; assim a objetivação de imagens simbólicas nestas produções poderá promover transferência de energia de um nível para outro. A imagem passa a ser viva, atuante e poderá ter eficácia criativa. Exprimir emoções através de produções artísticas, torna-se uma excelente forma de confrontá-las.

... as técnicas expressivas têm um enorme poder de intensificar a elaboração simbólica porque elas ativam a raiz arquetípica dos símbolos através da mobilização de dimensões pouco acessíveis à palavra ... também podem ser indicadas, porque elas ampliam o contexto da elaboração simbólica além do contexto verbal (8).

As séries de produções permitirão acompanhar com bastante clareza o desdobramento de processos intra-psíquicos e identificar temas que possuam relação significativa com os casos clínicos em estudo.

Caso Clínico X

Pr. tem 27 anos. Entregue a uma casa de adoção ao nascer, foi adotada por um casal sem filhos, que a criou rodeada de amor e carinho. Nunca teve contato com sua família de origem, nem nada sabia da mesma.

Buscou terapia pois sentia uma dor terrível no peito, angústia, respirava mal e sentia uma ardência no ventre, como se este estivesse queimando. Além disso apresentava uma certa dificuldade com sua imagem corporal.

Alguns meses após o início de seu processo psicoterápico, foi sugerido que desenhasse seu corpo, preenchendo-o com símbolos. Neste desenho pr. trouxe a imagem de um útero que sangrava.

Amplificando a imagem desse útero, sugerindo que pr. representasse o que esse útero lhe sugeria, apareceu a imagem de uma criança apavorada sofrendo uma agressão.

Levantou-se a hipótese de Pr. já ter se submetido a algum aborto, o que foi negado por ela. Nunca engravidara. Continuando o processo de amplificação, surgiram, então, uma série de imagens de aborto, onde o feto era esfaqueado, arranhado com garras que o cortavam, ameaçado com objetos cortantes.

Pr. não entendia o porquê dessas imagens. Anos mais tarde, querendo saber a história de sua origem, Pr. buscou sua família biológica. Reencontrou a mãe biológica e soube que esta fizera várias tentativas de aborto frustradas. Quando resolveu, então, entregá-la a um lar de adoção.

Embora Pr. não tivesse a consciência da violência que sofrera durante a gravidez de sua mãe, seu corpo e seu inconsciente tinham esse registro. Não havia como ela verbalizar algo que ocorreu numa fase pré-verbal.

Este caso mostra que o inconsciente tem um arquivo dinâmico que quando em situação de ativação traz à tona lembranças vividas desde a época pré-verbal e/ou outras épocas. Ele atua de uma forma retrospectiva. E a arteterapia facilita a expressão dessas imagens, atualizando-as e integrando-as à consciência.

Minha Experiência Pessoal

Iniciei minha formação em arteterapia em 1990. Fiz a formação e depois comecei um processo de auto-conhecimento através da arte em 1993.

Nesse momento de minha vida o meu desejo de ter um filho era grande, mas já havia sofrido dois abortos espontâneos. Aos 42 anos, já não acreditava muito nesta possibilidade. Mas o inconsciente não tem disfarce e começou a me mandar as imagens.

Na época do curso de formação, com lápis preto grafite, fiz uma imagem de uma escultura que havia visto no museu. Quando iniciei meu processo em arteterapia, escolhi essa imagem, entre tantas outras, para amplificar. O meu inconsciente me levou a essa imagem. Aparentemente uma simples escultura.

Usando aquarela transformei essa imagem no que naquele momento meu inconsciente estava vendo: uma figura alada grávida.

Foi sugerido um trabalho com água. Esta técnica consiste em colocar numa bacia d' água elementos orgânicos, tais como: folhas, flores, sementes ... O desejo da maternidade foi ficando mais claro. Pois ao desenhar o que sentia desta água, surgiram imagens de uma célula se multiplicando.

Amplificando com a argila surgiu então o útero.

Passando para o fogo, derretendo giz de cera de forma aleatória, surgiu a imagem da fecundação: espermatozóides em busca do óvulo.

Explorando outro tipo de material, usei papel canson molhado e ecoline , e foram surgindo manchas, onde identifiquei um ser das águas. Amplificando essa imagem, passei, então, para um desenho com pastel a óleo, surgiu então um ser primitivo, com semblante infantil. Continuei a amplificação com argila e, do trabalho com o barro, configurou-se o esboço de um feto.

Meses depois descobri que estava grávida. Meu desejo saíra do inconsciente, do mundo das imagens para o concreto. Nasceu, então, meu filho Thiago.

Essa minha experiência mostra que o inconsciente atua de uma forma prospectiva.

Embora conscientemente eu não acreditasse mais na possibilidade de realizar este meu desejo, o meu inconsciente percebia que meu corpo e minha alma estavam se preparando para gerar um novo ser.

CONCLUSÃO

A arteterapia, que trabalha com a expressão e criação artística, é um canal direto para receber a informação do sistema límbico tanto de memórias pré-verbais, como imagens simbólicas, precursoras de novos acontecimentos que irão se realizar no futuro.

Jung mostra ao longo de sua obra, que o inconsciente não só reage; ele age, ele prediz, ele alerta, ele abre horizontes, ele elucida. Sendo a escrita do inconsciente essencialmente imagética, a Arteterapia é um meio eficaz para captar e expressar essas imagens, trazendo-as para sua expressão material, abrindo-se para a integração à consciência.

Conforme o embasamento teórico da Psicologia Analítica de Jung e validado pelos casos apresentados com suas imagens, fica evidente o quanto a Arteterapia se coloca na vanguarda desse contato com o inconsciente, visando integrar esses conteúdos à consciência.

 

LIGIA DINIZ

Psicóloga-CRP 1900-RJ

Arteterapeuta

Pós- graduada em Psicologia Junguiana

Bacharel em Artes Cênicas

Facilitadora de Biodança


REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIA:

BYINGTON, Carlos - Uma Avaliação das Técnicas Expressivas pela Psicologia Simbólica , in Junguiana 11 – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, - p.136 (6) e p. 139 (7).

JUNG, Carl Gustav – A Vida Simbólica – Obras Completas, Vol. XVIII/2. R.J., Petrópolis: Vozes, 2000.

Ab-Reação, Análise dos Sonhos, Transferência – Obras Completas, Vol. XIV/2.R.J., Petrópolis: Vozes, 1990.

(1) ----------------------- - Memórias, Sonhos e Reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975 .

(2) {4) (5) - ------------ - O Eu e o Inconsciente, Obras Completas , vol. VII -2 . Petrópolis, RJ: Vozes, 1988.

-------------------------- - Tipos Psicológicos, Obras Completas, vol. VI, Petrópolis, RJ: Vozes, 1991.

(3) MAQUINE, W e HULL, R. F. C. – C. G. Jung: Entrevistas e Encontros – Cultrix.

PHILIPPINI, A.- Apostila de Arteterapia , Ed. Clínica Pomar, RJ: 1989.

(8) SILVEIRA, Nise – Imagens do Inconsciente . Rio de Janeiro: Alhambra, 1981.

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