ARTE-TERAPIA E ALQUIMIA
REVISTA IMAGENS DA TRANSFORMAÇÃO
Nº. 7 - VOL. 7 – 2000.



RESUMO:

O objetivo deste trabalho é traçar um paralelo entre a Arte-Terapia e a Alquimia, mostrando que ambas retratam a individuação, a transformação a partir da prima matéria, tendo a obra como mediadora.

Trata-se da visualização de conteúdos inconscientes que vão sendo projetados e transformados através dos mais diversos canais expressivos.

 

ABSTRACT:

“O artista não é uma pessoa de livre arbítrio que persegue seus objetivos, mas alguém que permite à Arte realizar seus propósitos através dele. Como ser humano, ele pode ter humores, desejos e metas próprias, mas como Artista ele é “homem” num sentido mais sublime ele é um homem coletivo – alguém que carrega e molda a vida psíquica inconsciente da humanidade”

Carl Gustav Jung

 

 

ALQUIMIA E INDIVIDUAÇÃO

A palavra Alquimia, em árabe Ul-Khemi é “ a química da Natureza ” .

Esta teve seus primeiros registros no século I A.C, seus caminhos diversificaram-se e misturaram-se a outras formas de saber e religiões. Ela desenvolveu-se por um período de quinze séculos. Seu saber acabou por dar origem à química, influenciando a física, as correntes religiosas, filosóficas e literárias .

Esta procurava “ elevar a consciência individual até a identidade da mente universal, e através da união com a mitologia – única religião de todos os povos – alcançar o autoconhecimento ” .

Trata-se da arte da transmutação dos metais com vistas à obtenção do ouro. Mas esta é uma operação simbólica. “ O ouro é a imortalidade . E é essa justamente a tendência da única transmutação real: a da individualidade humana ” .

Jung descobriu que a psicologia analítica coincidia de modo singular com a alquimia “ ... todo o procedimento alquímico ... pode muito bem representar o processo de individuação ... ” .

Assim, descreve o processo de individuação como “ um processo de diferenciação que tem como meta o desenvolvimento da personalidade individual ” . Significa, portanto, “... tornar-se um ser único, na medida em que por individualidade entendemos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo´ .

O processo de individuação é intrínseco ao ser humano, ou seja, tem uma “ existência inconsciente ” à priori. Vincula-se à “ separação, diferenciação, ao reconhecimento do que é nosso e do que não é nosso ” e refere-se à integração dos conteúdos que emergem do inconsciente.

As imagens alquímicas descrevem o processo da psicoterapia profunda. Opus alquímico e processo de individuação são fenômenos idênticos. O grande trabalho descrito pelos alquimistas correspondia exatamente ao processo de individuação que Jung desvendara na profundeza do inconsciente. Pois,

... O processo de individuação é a versão moderna da transmutação alquímica em que a matéria-prima sem valor era transformada em ouro ou na “pedra filosofal”, o símbolo do tesouro oculto que aparece em tantos contos e lendas. Ora, este tesouro oculto, na verdade, está dentro do homem e cabe a cada um de nós descobri-lo, o que só pode acontecer, segundo Jung, a partir de um diálogo constante entre consciente e inconsciente, sem unilateralidades ou radicalismos .

O esquema básico da alquimia para realizar a “opus”, porém, é simples.

A Alquimia descreve um processo de transformação química realizada em quatro estágios. Esses estágios foram mencionados em Heráclito caracterizados pelas cores: “... melanosis o enegrecimento, leukosis - o embranquecimento, xanthosis - o amarelecimento, e iosis - o enrubescimento ... Mais tarde foram reduzidas a três: retirou-se a xanthosis (em seu lugar a viriditas - o verde )” .

O papel da cor tem assim um papel significativo na Alquimia. Associadas a ela, definem-se as fases da Alquimia como a Nigredo, Albedo, Citredo e Rubedo, correspondendo, cada uma, a um dos elementos da natureza Terra, Água, Ar e Fogo .

A Nigredo é um estado inicial, quando a matéria está no estado de massa confusa, do Caos, sempre presente no início como uma qualidade da “prima matéria”. A Nigredo, em sentindo psicológico, corresponde” à escuridão do inconsciente, que encerra em primeira linha a personalidade inferior ou a sombra” . Está ligada a Saturno, e o metal correspondente é o chumbo .

É a fase onde “ os conteúdos psíquicos se separam do aprisionamento no corpo, e se torna conhecida a natureza e o significado do que perfaz a relação ” .

Seguem–se procedimentos de lavagem, solução, separação de elementos que conduzem ao embranquecimento; aí pode dar-se que as múltiplas cores – a “ Cauda Pavonis ” – conduzam à cor branca e una , que contém todas as cores – a “ ommes colores ”. Isso ocorre “... antes da produção do “branco” (albedo) ou do “vermelho” (rubedo) ... como quando o pavão abre a roda colorida da cauda ” .

Aí, é atingida a segunda etapa, denominada Albedo. A Albedo “ é a luz que surge após as trevas, a iluminação após o obscurecimento ” , marcando a nova união do corpo e da alma, do macho e da fêmea; é a ressurreição, as núpcias do céu com a terra, aqui a lua rege os fenômenos, é o nascimento da prata filosofal.

Em termos psicológicos o adepto estaria na condição do encontro com o princípio feminino (anima). “ A Albedo é , por assim dizer a aurora; mas só a Rubedo é o nascer do sol ” . E a aurora (áurea hora ou seja, a hora do ouro) “ é a ‘mãe do sol' (sol = ouro); ela expulsa a noite invernal e todos os maus vapores que infectam o espírito do alquimista... ” .

Mas ainda não é o fim do processo, visto que “ ... A substância branca também é conhecida como um corpo puro, purificado pelo fogo, mas que ainda não tem alma ” .

A elevação do fogo, o aquecimento intenso leva então da Albedo à Rubedo.

Então, o sol surge. Unem–se os opostos, os princípios feminino e masculino internos se casam. O vermelho e o branco são o rei e a rainha que celebram suas núpcias nesta fase.

Atingir o vermelho “ indica força de cura ‘o maná', a ‘imputrescibilidade, a irradiação viva elevada a um grau superior ” .

A Rubedo é sol, é a perfeição do lápis filosoforum. Através dela é obtida a pedra filosofal. O alquimista teria realizado a totalização psíquica, ou seja, a Individuação. A pedra filosofal é o Self.

No processo de psicoterapia, compara-se a Nigredo à fase da catarse; a Albedo a fase interpretativa; a Citredo a da educação e a Rubedo à individuação propriamente dita. Tal qual o processo de individuação depois de iniciado é um “caminho sem volta ”, no sentido de que não há como retroceder. Ao vislumbrar os “ tesouros do inconsciente ” corre-se o risco de ser tragado por ele.

Torna-se importante ressaltar que todo o processo se passa no interior de um vaso hermético, temenos (templo, recinto sagrado) como o denominavam os alquimistas.

No processo terapêutico a relação acontece tal qual nesse vaso, onde terapeuta e cliente depositam seus conteúdos, concentrando-se no centro deste. Neste espaço ocorrem as inúmeras operações alquímicas e transformação dos conteúdos psíquicos. Possuir um vaso corresponde a um estado de relativa introversão, ou seja, olhar para dentro de si.

ARTE-TERAPIA

Desde tempos imemoriais, constata-se que as artes, os mitos, as religiões e a literatura sempre expressaram as mais profundas emoções humanas. São meios de comunicação comum a toda espécie humana. Assim, comunicamo-nos de diferentes formas: “ através da palavra, da mímica e das reações psicomotoras, da realização de atos, das várias modalidades de expressão plástica ” .

A Arte-Terapia, embora originada de uma atividade milenar, é de aparecimento recente como instrumento de terapia. Data de aproximadamente 50 anos e não há ainda um campo unificado de conceituação, a respeito de sua ação terapêutica. O termo Arte-Terapia inclui “ qualquer tratamento psicoterapêutico que utiliza a meditação a expressão artística – dança, música, teatro, representação plástica: pintura, desenho, gravura, modelagem, máscara, marionetes... ” .

Acreditamos que a vida psíquica tem uma tendência inata para a organização e o processo terapêutico através da arte poderá dinamizar esta tendência.

A prática da Arte-Terapia facilita a decifração do mundo interno, o confronto com as imagens que a energia psíquica aí configura. A compreensão destas formas simbólicas possibilita o confronto com o inconsciente, e a tomada de consciência de seus conteúdos, pois o mundo das emoções e o mundo das coisas concretas não está separado por fronteiras intransponíveis.

É, portanto, um processo terapêutico que baseia-se na criação e análise de séries de produções artísticas, que isoladas, poderão oferecer dificuldades para serem decodificadas. As séries de produções permitirão acompanhar com bastante clareza o desdobramento de processos intra-psíquicos e identificar temas que possuam relação significativa com os casos clínicos em estudo. Tais produções, tal qual os sonhos, indicam, indicam motivos e a existência de uma continuidade no fluxo de imagens do inconsciente.

Jung nos mostrou que “ as fantasias dirigidas por reguladores inconscientes coincidem com os documentos da atividade do espírito humano em geral, conhecidos através da tradição e da pesquisa etnológica ” . A forma representando o aspecto consciente e o significado desta, o aspecto inconsciente.

Sabe-se que o processo psíquico desenvolve seu dinamismo por intermédio de imagens simbólicas. O símbolo é o mecanismo psicológico que transforma a energia psíquica; assim a objetivação de imagens simbólicas nestas produções poderá promover transferência de energia de um nível para outro. A imagem passa a ser viva, atuante e poderá ter eficácia criativa. Exprimir emoções através de produções artísticas, torna-se uma excelente forma de confrontá-las. Proporciona-se oportunidades da imaginação desenvolver-se livremente, e se permite ao indivíduo poder participar concretamente do produto imaginado, uma vez que reproduzir o que vemos "dentro" de nós é muito mais complexo do que reproduzir aquilo que é visto "diante" de nós.

O exorcismo dessas imagens aterradoras desgasta o impacto das mesmas, tornando-as menos assustadoras e mais familiares. A arte despotencializa a carga de emoções destas imagens, facilita sua decodificação, além de facilitar a reorganização da ordem interna e a reconstrução da realidade. Expressando através da arte os fragmentos de um ego cindido, ou de um conflito vivenciado desordenada e dolorosamente, o indivíduo conseguirá libertar-se destas imagens aprisionadas e aprisionantes.

É bom lembrar que o psiquismo tem uma incrível capacidade de lutar contra a doença, de sobreviver à anulação completa, mesmo sob toda sorte de pressão. A atividade criativa libera estas forças regeneradoras.

Todo arte-terapeuta deve conhecer a capacidade simbólica da comunicação não verbal.

O símbolo é o "intermediário" que agrupa processos inconscientes e os situa, aos poucos, discriminadamente no nível consciente. Cabe ao arte-terapeuta, portanto, utilizar técnicas que possibilitam situações, para que os símbolos sejam expressos livremente.

O arte-terapeuta deve evitar empregar interpretações a nível verbal, o que pode impedir ou dificultar a livre expressão dos símbolos.

Para que o arte-terapeuta possa tornar mais manifestos os conteúdos latentes nos símbolos, poderá lançar mão de recursos como associações livres, desenho, pintura, modelagem, esculturas, expressões corporais, psicodrama, musical, interação entre técnica plástica e o verbal (desenhando o símbolo e escrevendo palavras que o explicitem), fazendo uma poesia com o símbolo. E outros recursos como armar um brinquedo, fantasia dirigida, caixa de areia; e tantas outras variações de técnicas criativas, verbais, plásticas, corporais, dramáticas, musicais, quantas sejam necessárias a cada paciente.

Para isso é necessário que o arte-terapeuta tenha amplo conhecimento do emprego de técnicas expressivas: corporais, musicais, plásticas, literárias e dramáticas.

A Arte-Terapia é uma atividade terapêutica que constitui-se em um desafio permanente à criatividade.

Como qualquer outra prática terapêutica deve ser uma tentativa determinada de duas pessoas para recuperar a integridade do ser humano através do relacionamento entre elas. No que se refere ao terapeuta, intuição e sensibilidade são essenciais. Mais importantes que regras acadêmicas, embora considerações teóricas sejam necessárias na compreensão da linguagem simbólica.

A Arte-Terapia, devido ao seu grande arsenal de técnicas, facilita bastante a concretização dos propósitos do processo psicoterápico junguiano.

Por propiciar a visualização dos símbolos, o processo terapêutico em Arte-Terapia registra uma grande quantidade de imagens. Através destas, o terapeuta tem acesso ao universo imaginário de seu cliente. Observam-se registros dos mais diversos, carregados de imagens arquetípicas.

Por tratar-se de um percurso arquetípico, o processo alquímico – através de suas operações - aparece muitas vezes representado, como mostraremos a seguir.

  PRINCIPAIS OPERAÇÕES ALQUÍMICAS NA ARTE-TERPIA

1. SOLUTIO

A Solutio é a operação alquímica ligada a água.

Esta é a matéria prima original a partir da qual tudo foi criado. Através dela, pode ocorrer o renascimento. Diziam os alquimistas: “ Não faças nenhuma operação enquanto não transformares tudo em água ” . Sendo assim, “... os corpos não podem ser mudados senão pela redução à prima matéria ” .

Símbolo do inconsciente mais profundo e coletivo, a água é a matriz do universo. O grande útero de onde tudo emerge e “ de onde nasce o Ego. Trata-se da prima matéria que existe antes da diferenciação de elementos pela consciência ” .

A água com seu movimento fluído contorna os obstáculos sem se deter perante eles. Sua persistência e sua maleabilidade são sua força. A Solutio nos fala da sabedoria da água que não luta contra as dificuldades, apenas acompanha o terreno e se adequa às circunstâncias.

A experiência da Solutio “dissolve” problemas psicológicos mediante a transferência da questão para o domínio do sentimento. A Ópus toda pode ser resumida na frase: “ Dissolve e Coagula ”.

Os sonhos com inundações referem-se à Solutio. Representam uma ativação do inconsciente que ameaça dissolver a estrutura estabelecida do ego e reduzido à prima matéria.

Em Arte-Terapia essa operação pode ser exemplificada com os trabalhos diversos.

Sentir a água, batismo e banhos são técnicas utilizadas na proposta corporal. Atividades realizadas na própria água possibilitam uma regressão.

Dissolver dobraduras, picar imagens ou cartas escritas dissolvendo em bacia d' água para depois reutilizá-las, através da técnica de papier marché ou de reciclagem de papel possibilitam a transformação de conteúdos. Passa-se, então, da Solutio para a Coagulatio.

Ecoline ou aqualine, ou pigmento de xadrez líquido, ou de nanquim pingados em papel canson com água permitem um mergulho profundo no inconsciente. Anilina e aguada de guache também são usadas para dissolver, lavar o que precisa ser transformado. A aquarela e o guache aguado impedem o controle racional sobre as imagens que se formam, facilitando as projeções inconscientes.

Segue a estrutura de uma vivência focalizando a Solutio.

•  Caminhar com Fluidez: caminhar pelo espaço como se estivesse fluindo nas águas.

•  Preencher os vazios: fluindo em grupo, um preenche o vazio deixado pelo outro.

•  João Teimoso: uma pessoa no centro da roda solta o corpo enquanto o grupo da continente e a empurra levemente, como se fosse um boneco João teimoso.

•  Giro dentro da roda: um a um vai ao centro da roda e gira sobre si mesmo, passando pelas outras pessoas na roda, no sentido anti-horário. É uma vivência de regressão ao útero materno.

•  Elasticidade Lenta: deitado, cada um vai fazendo movimentos suaves, como um gato que se encolhe, se estica e rola.

•  Fluidez Fetal: como neném no útero cada um vai fazendo leves movimentos.

•  Nascimento e Crescimento: saindo desse útero, vivencia-se o crescimento.

•  Batismo: cada um será batizado no grupo.

•  Leitura na Água: para finalizar, sobre uma folha molhada, com pincel e ecoline, cada um cria uma imagem que traduza a sua vivência.

2. COAGULATIO

A Coagulatio é o processo que transforma as coisas em terra. Vincula-se, portanto, ao princípio feminino, como imagem do útero acolhedor que propicia a encarnação e concretização das energias vitais. “... É a concretização, ou realização pessoal, de uma imagem arquetípica ” .

Refere-se à ação, à praxis, ao que é concreto e objetivo. Coagular é sinônimo de concretizar, ou seja, tornar matéria. Refere-se a uma estrutura firme e sólida, que possibilita a construção do ego. Portanto “... sua forma e localização são fixas; assim para um conteúdo psíquico, tornar-se terra significa concretizar-se numa forma localizada particular – isto é, tornar-se ligado a um ego ” .

Psicologicamente “ significa que a atividade e o movimento psíquico promovem o desenvolvimento do ego. A exposição à tempestade e à tensão da ação, a batedura da realidade, solidifica a personalidade ” .

O elemento Terra e a Coagulatio nos levam à reflexão sobre o que estamos concretizando nas nossas vidas e qual o peso das nossas atitudes.

A base do trabalho com a Coagulatio é a escultura em argila. Trabalhos com construção em geral, como blocos de madeira, tapete emborrachado, lego. O uso de massa corrida, gesso, papier marché, massa de modelar em várias texturas, também facilitam a Coagulatio. Tocar a terra, plantar, também é um bom exemplo.

Segue o exemplo de uma vivência enfocando a Coagulatio.

•  Caminhar sentindo a terra: andar pelo espaço sentindo o contato dos pés com o chão.

•  Caminhar soltando bem os quadris: andar soltando a pélvis.

3. Modelar o outro: em dupla, uma pessoa senta-se encolhida como se fosse uma grande bola de argila e o outro vai “amassá-la” e modelá-la.

•  Soltar a pélvis no chão: deitado com os joelhos dobrados e os pés no chão, ao som de uma batucada, tirar a pélvis do chão e encostá-la retirando novamente, no ritmo do batuque.

•  Dança da Serpente: como uma serpente, movimentar-se pelo chão com sinuosidade e ir se levantando aos poucos.

•  Carícia no ventre: uma pessoa se deita e a outra massageia seu ventre.

•  Elasticidade sentindo à terra: deitado, sentindo o chão movimentar-se como um gato que se encolhe e se espicha, rola para os lados.

•  Sentir a terra em grupo: sentar-se numa roda com um bolo de argila ao centro. Todos juntos sentem e amassam a terra.

•  Pegar um pedaço da terra e dar uma forma: retirar um pedaço da terra e sentar-se num canto. Sentir a terra de olhos fechados e sem pensar em nada a priori, deixar que suas mãos transforme a terra.

10. Nomear e colocar no mundo: colocar a forma num papel recortado em círculo no centro de uma roda atribuindo-lhe um nome.

4. CALCINATIO

A Calcinatio é a operação do fogo. Logo, toda imagem que contém o fogo livre queimando ou afetando substâncias, aquecendo-as ou fervendo-as, se relaciona com a Calcinatio. Assim, o processo químico da calcinação envolve o intenso aquecimento de um sólido.

O elemento é o fogo que tem como características básicas a luz (pensamento) e o calor (emoções). Sendo assim a Calcinatio é a operação alquímica que vai nos ensinar a lidar com esses dois aspectos.

O princípio regente é o Logos que determina a apreensão clara, lúcida e abrangente, englobando o conhecimento racional. Inclui também a avaliação afetiva, sensorial e intuitiva.

A Calcinatio é efetuada no lado primitivo da Sombra, que acolhe o desejo faminto e instintivo e é contaminado pelo inconsciente.

O fogo da Calcinatio é um fogo purgador, embranquecedor. Atua sobre a matéria negra, a Nigredo, tornando-a branca.

O fogo também vincula-se ao renascimento, como nos mostra o Mito de Fênix. Trata-se de uma ave mítica que ” ... é o símbolo do renascimento através do fogo. Segundo a lenda medieval a Fênix vive na Arábia mas voa para o Egito, o país da alquimia, onde se entrega ao seu ritual de morte e regeneração ” .

O produto final da Calcinatio é uma cinza branca. Esta representa a Albedo ou fase de embranquecimento, que admite associações paradoxais.

Da perspectiva mais simples, a Calcinatio é um processo de secagem.

Um importante componente da psicoterapia envolve a secagem de complexos inconscientes que vivem na água.

Como exemplo da operação “Calcinatio “ em Arte-Terapia, temos a vivência de derreter giz de cera na vela. Consiste em dar ao cliente giz de cera de várias cores e uma vela acesa. O cliente é orientado para ir derretendo a cera do giz e formando uma imagem. Proposta semelhante consiste em desenhar com a cera de velas coloridas derretidas.

O fogo brando da vela é o fogo transformador, não queima nem esfria, mas mantém aquecido, transformando, purgando - destruindo as diferenças, extinguindo os desejos, reduzindo ao estado primeiro da matéria.

O trabalho com cores quentes também vincula-se à Calcinatio. Assim como dar forma ao papel, queimando-o.

Outra técnica utilizada, queimar aquilo que não se quer mais numa fogueira ou nas chamas branda de uma vela e depois deixar que o vento carregue as cinzas. Aqui tem-se a Calcinatio seguida da Sublimatio.

A vivência do Mito de Fênix em Arte-Terapia, focaliza a Calcinatio. Segue sua estrutura:

•  Caminhar com Determinação: andar pelo espaço deixando o que não quer mais para trás;

•  Momento de Introspecção: sentado buscar pensar na sua existência, no que deixou para trás e no que deve ser queimado e escrever num papel.

3. Roda em volta do fogo: queimar numa fogueira os papéis, observando sua transformação em cinzas.

4. Ovo: se fechar num grande ovo e voltar a pensar na sua existência, no momento em que vive, nos potenciais novos que estão se desenvolvendo e em tudo aquilo que está pr'á chegar.

•  Saída do Ovo: o ovo se quebra e cada um vai nascendo e crescendo.

•  Vôo da Fênix: e quando sentir-se pronto, cada um faz seu vôo existencial, sentindo o cosmo.

•  Pintura do Novo Ser: apresentação das pinturas para o grupo, nomeando o Ser que surgiu.

5. SUBLIMATIO

Sublimatio vem do latim “sublimis” que quer dizer “elevado”. É um processo ascendente de transformação. Trata-se de uma operação que pertence ao ar.

Sendo assim a essencia da Sublimatio contém sempre um aspecto de elevação. O que é inferior torna-se superior, um corpo se rolatiza, a terra se transforma em ar, algo inferior se eleva, o corpo se torna espírito. Ou seja “ a sublimatio é, psicologicamente, o processo de elevação de experiências concretas e pessoais a um nível superior, ou nível de verdade abstrata ou universal ” .

Tendo o ar um movimento ascensional e a intuição com sua atuação sutil, nos leva ao simbolismo que evoca um outro mundo além da realidade concreta. Assim as portas do universo das idéias platônicas, dos grandes ideais, daquilo que é transcendente, o mundo dos grandes valores, dos sonhos e do sagrado, abrem-se. Trás, portanto, uma compreensão mais abrangente da vida vem do distanciamento que obtemos ao nos elevarmos acima de nossos problemas, trazendo novas perspectivas.

A Sublimatio também pode ser entendida como simbolismo de ascensão, de translação para a eternidade. Assim, tendo a alma se purificado, esta pode subir os degraus das esferas planetárias.

O perigo da Sublimatio é quando esta é levada a extremos, o que leva a dissociação, pois “... a capacidade de dissociação da psique é tanto a fonte da consciência do ego quanto a causa da doença mental ” .

Em Arte-Terapia vincula-se a Sublimatio vivências ligadas à respiração de uma maneira geral e ao sopro. Alguns exemplos são: respirar soprando o ar na inspiração, respirar soltando sons, dança com panos diversos, relaxamento dinâmico focalizando a respiração (soltar sons vinculados ao movimento), visualização criativa ligada a inspiração e a respiração, soprar bexigas, soprar tinta no canudo, soprar farelo de giz de cera ou pastel.

A construção de móbiles também está ligada à Sublimatio, referindo-se ao mudo das idéias, ao pensamento.

O tipo de música que facilita o contato com a Sublimatio leva a uma vivência de transcendência. O som de flautas de pam, órgão e da harpa, em geral, fazem com que o sujeito sinta-se como se estivesse saindo do chão. São exemplos de música: Theme from Limelight e Meditação de Thaís – com arranjo de Zamfir; Beatriz, de Chico Buarque de Holanda; Ave Maria, de Shubert; Recuerdos, de Taylor; Tritese, de Chopim; Abraham's Theme, de Vangelis; Space/Time Continuum, trilha sonora do seriado Cosmos; The Butterfly Suite (Overture), de Louise Eldridge.

Segue o modelo de uma vivência em grupo tendo por base a Sublimatio.

•  Roda Inicial : a roda é o princípio do grupo e marco do início do trabalho.

•  Caminhar de Peito Aberto: andar pelo espaço abrindo o peito, expandindo, assim, a capacidade respiratória.

•  Encher Bolas: focaliza o sopro: trata-se encher bolas coloridas, depois experimentar soltar o ar no seu corpo e encher novamente, soltando-o nos outros. No final cada um amarra a ponta de sua bola, deixando-a cheia.

•  Fluir com as bolas e o outro: propõe-se sentir a leveza, curtir as bolas, sentir sua leveza. Depois trocá-las com os outros.

•  Sentir o ar no corpo e as bolas, trocando com o outro

•  Soprar o outro pelo dedo: sentado dois a dois, soprar o outro pelo dedo como se ele fosse um grande balão de ar.

•  Soprar o corpo do outro: um deitado e o outro vai soprando, de forma que o primeiro possa sentir o ar no seu corpo.

•  Ninho: num grande ninho, todos deitados com se estivessem num grande ovo, num grande útero. Sentindo a sua respiração, o seu eu, a sua existência.

•  Garça – Vôo Existencial: cada um sai do ninho, batendo as asas, partindo para um vôo existencial.

10. Conexão com o universo: encontrando as outras graças, todos voam juntos.

11. Desenhar, pintar sua emoção – Sopro com Canudos: numa folha de papel canson A2 umedecida soprar canudos com tinta guache colorida na ponta,

  CONCLUSÃO:

  A alquimia é uma forma de compreendermos o processo de individuação. Através das imagens, podemos perceber nitidamente como se dá este percurso.

Muitas são as semelhanças entre o processo alquímico e a Arte-Terapia.

Na Arte-Terapia, além da relação terapeuta-cliente, existe a “opus” não só a nível interior como a nível concreto. O cliente vê sua obra. E essa obra interfere na psique e a psique interfere na obra. Como na alquimia, mestre e discípulo acompanham a transformação da prima matéria. Assim como os alquimistas projetavam seu inconsciente nos metais, o cliente projeta seu inconsciente na produção artística. E a medida que essas imagens vão sendo transformadas, os conteúdos psíquicos também vão se transformando. Como na alquimia, que o inconsciente é projetado na obra, e a obra interfere no processo psíquico do alquimista.

Na alquimia entre o mestre e o discípulo há a obra. Na Arte-Terapia, também, entre terapeuta e cliente há a produção artística; essa produção recebe as projeções do analisado e assim, o terapeuta pode ajudá-lo a elaborar essas projeções com mais facilidade, pois a transferência não é tão somente no terapeuta, mas muito dessa energia vai para a obra, prá produção artística; ficando o terapeuta de facilitador desse processo.

O set terapêutico como o temenus, fornece a proteção e os materiais necessários, para essa transformação ocorrer.

Na alquimia, o espírito vai sair da matéria. Na Arte-Terapia sairá da produção do cliente que é a matéria que será transformada, através de trabalhos com o fogo (Calcinatio), com a água (Solutio), com a argila, terra (Coagulatio), com o ar (Sublimatio).

Nas produções artísticas iniciais aparece claramente a sombra, quando o cliente vai entrar em contato com seu lado negro, a Nigredo; é a vivência do caos, surge nas obras a massa confusa. Vê-se, então, o confronto com a sombra. Nesse momento, com muito sofrimento é preciso morrer, para de novo renascer. Matar o homem velho para fazer nascer o homem novo – ocorre a mortificatio e a putrefatio.

Mas, como todo símbolo, os opostos estão contidos nessas produções artísticas. Há que se separar os conteúdos (Separatio), lavá-los (solutio), amplificá-los, clareá-los, alcançando a Albedo, atuar praticamente através dele, chegando a Citredo, para mais adiante juntá-los conscientemente (conunctio), na Rubedo.

É quando ocorre o casamento entre o Rei e a Rainha, o hierosgamos.

Esse processo não termina, porque novos desafios aparecem e podem levar o indivíduo de novo à Nigredo, e as operações alquímicas vão se repetir. Na realidade é uma espiral (circulatio), mas sempre em nível crescente de tomada de consciência, sempre uma “oitava acima”.

Na coniunctio superior, quando se dá a Rubedo, atinge-se a pedra filosofal, a união dos opostos, a totalidade; alcança-se o amor cósmico e transpessoal, o que nos leva a ampliar a sabedoria, a multiplicar a sabedoria - multiplicatio, dessa forma podemos ajudar os outros a se transformar e ajudar a transformar o mundo.

Se a terapia fosse feita só pelo discurso verbal, o cliente pode se defender através da lógica. Mas, com as imagens, com o corpo, não há como controlar, como manipular, e assim com a Arte-Terapia o sujeito pode se permitir fluir, e ir deixando a alquimia ser feita.

Como o alquimista, o cliente projeta “... sobre os materiais manipulados acontecimentos em curso no seu inconsciente. Essas projeções se afiguravam ao alquimista propriedades da matéria, mas de fato o que ele experienciava era o próprio inconsciente ” .

O presente trabalho mostra como utilizar a Arte como instrumento facilitador do processo de individuação. Acredito ser este um instrumento rico e de grande relevância para os terapeutas de base junguiana, visto que trás o símbolo para o concreto, facilitando não só a sua consciência, como sua transformação e amplificação.

No mais, como diz Gouvêa :

A imagem é veículo do Ser. Encontra-se no profundo da pessoa, no mundo de suas intuições, uma vida inteira a querer se expressar. De início, uma lenta e penosa gestação onde todo um universo de experiências começa a tomar forma. No momento exato, há uma ruptura definitiva e o Ser se manifesta em forma de imagem. Na imagem que há por trás das emoções a “voz do Ser” se faz ouvir. A compreensão do Ser, clareira do Ser, abrigou-se nessas imagens. Na emoção jaz uma imagem que busca exteriorizar-se e essa imagem assume ao mesmo tempo um caráter de significação e comunicação (voz e Ser). O mundo constitui sempre o horizonte para o qual ele está orientada. A imaginação imagina e se enriquece incessantemente de novas imagens, que, tateando nos labirintos de nossa psique, saem ao encontro de um mundo que bate do outro lado de nossa intimidade.


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