LEILA DINIZ: UM FEMININO QUE SE REALIZOU
REVISTA IMAGENS DA TRANSFORMAÇÃO
Nº 6 – VOL. 6 – 1999.



RESUMO:

Este artigo tem como objetivo mostrar o trajeto de uma mulher que constelou pioneiramente em seu contexto cultural a versão feminina do arquétipo do herói: minha irmã, Leila Diniz.

Comparo sua trajetória com a trajetória do herói, mostrando que Leila alcança, em sua breve passagem aqui nesta vida, a plenitude do seu ser, e se transforma em símbolo de mulher revolucionária, se tornando um mito nacional.

ABSTRACT:

This article has the objective of showing the journey of a woman who stood out in a pioneering manner from her cultural context, as a feminin version of the archetypal hero: my sister, Leila Diniz. I compare my sister's journey to the hero's journey, showing how Leila attained the plenitude of her being in her brief passage through this life, and thereafter became a symbol of the revolutionary woman , became a national legend.

“Sou uma pessoa livre e em paz com o mundo. Conquistei a minha liberdade a duras penas, rompendo com as convenções que tolhiam os meus passos. Por isso, fui muitas vezes censurada, mas nunca vacilei, sempre fui em frente. Tudo que fiz me garantiu a paz e a tranquilidade que tenho hoje. Sou Leila Diniz” (texto do diário de Leila).

 

LEILA DINIZ :

O FEMININO QUE SE REALIZOU

Leila, minha irmã, é filha do primeiro casamento do meu pai. Quando ela nasceu este casamento já estava falido. Ela foi gerada e parida em um casamento em crise , num contexto de dúvidas, tristezas e depressão. Sua mãe, ciente da separação que se aproximava, vinha se deprimindo e definhando. Quando Leila tinha sete meses de idade meu pai separou-se da mãe dela, e esta, fragilizada com todo este processo, ficou doente e acaba por ser internada, sem conseguir desempenhar seu papel de mãe.

Meu pai ficou com os filhos; assim, Leila aos sete meses é separada da mãe. Os filhos mais velhos foram colocados em um colégio interno. Leila, ainda bebê é entregue aos cuidados da avó paterna, que representa, assim, o papel de sua segunda mãe.

Meu pai era comunista, sonhava e lutava por um mundo com mais liberdade e mais igualdade. E em uma das reuniões do partido conheceu minha mãe .Foram viver juntos. E os filhos dele também.

Leila então, aos três anos de idade, é separada da mãe-avó , retorna ao lado do pai, recebe sua terceira mãe : a madrasta, que a amou e cuidou dela como filha.

É ocultado de Leila sua verdadeira origem, ela cresce pensando ser filha de minha mãe. Cresce nesta mentira, neste segredo velado.

Aos 15 anos descobre a verdade, revelada por uma tia mais velha, uma velha anciã.

Sai, então, da casa do pai e vai à procura de sua verdadeira mãe. Nesse momento Leila começa um processo de análise, (o que em sua época não era comum), uma busca de auto - conhecimento, um mergulho em si mesma.

Após viver um tempo com amigas, com uma tia e com a mãe real, retorna à casa paterna e assume a singularidade de sua vida: ela tem duas mães - “a que a pariu, e a que a criou “.

Mas Leila não fica muito tempo com nenhuma das mães. Logo vai viver com Domingos de Oliveira, ainda adolescente (17 anos). Começa aí seu percurso como atriz e como mulher adulta, revolucionária, que vai romper com os valores que aprisionavam as mulheres na tradicional sociedade brasileira.

É através da arte, que Leila pode reafirmar publicamente suas idéias e comportamentos de mulher liberada.

Leila cria uma linguagem própria, um comportamento singular.

Mulher bonita, sensual, suave. A encarnação de Afrodite, mas moleca, transgressora, diz palavrão, tem uma liberdade de ir e vir que só os homens tinham.

Ela une comportamento masculino com comportamento totalmente feminino.

É rebelde, mas não é agressiva, é doce.

Leila é amante e é mãe. Ela une sexualidade-prazer e maternidade.

É paradoxal. Livre, seu compromisso era com a liberdade.

Leila teve muitos amores mas não se prendeu a nenhum; “Eu gosto mesmo é de viver de amores”

Leila amava o mar, o mar era seu confidente, era no mar que ela ganhava energia. Leila mergulhava no mar a qualquer hora, à noite, de madrugada, de dia. E saia energizada, nutrida, abastecida. Ficava horas conversando com o mar. E depois nele mergulhava. Como se estivesse se banhando na Grande Mãe. Se o mar estava bravio, ela mergulhava e enfrentava sua fúria, como quem enfrenta seus próprios maremotos, seus próprios medos.

Dizia ela para o mar:

“Brigam Espanha e Holanda

pelos direitos do mar

O mar é das gaivotas

que nele sabem voar.

Brigam Espanha e Holanda

pelos direitos do mar

porque não sabem que o mar

é de quem o sabe o sabe amar”.

Ao ficar grávida, exibe sua barriga, seu corpo de mãe. Com total orgulho por ser mulher, por ser terra, por ser geradora, por ser mãe.

Leila exibe sua maternidade. Exibe a fêmea dando de mamar à cria.

O mar sempre presente, Leila dá o nome de Janaína, rainha do mar, para sua filha.

Como essa mulher pode ser tão linda, sensual, amante e também ser mãe carinhosa, nutridora?

Como essa mulher consegue ser mãe solteira e não ser infeliz, sofredora, “abandonada”?

Como essa mulher consegue ser tão rebelde, tão inovadora e não ser chata, feia, agressiva?

Os “poderosos” ficaram incomodados, não aguentaram, e começaram a perseguir Leila.

Exigiram dela que assinasse um documento comprometendo-se a não mais dizer palavrão em público. Cortaram sua linguagem.

Proibiram a sua imagem na televisão. Cortaram sua expressão.

Os “poderosos” a silenciaram.

Leila vai para longe. A viagem sem volta. Não se despediu, mas permaneceu.

E já que aqui na terra não podia mais se expressar, Leila explode no ar. Se desmaterializa. E como uma grande heroína vira uma constelação no céu. Para que todos possam ver : “Leila, um feminino que se realizou”.


ATIVAÇÃO DO ARQUÉTIPO DO HERÓI EM LEILA

“Herói é alguém que deu a própria vida

por algo maior que ele mesmo.”

Joseph Campbell

Via de regra os heróis tem um nascimento complicado, precedido por muitas dificuldades.

Leila nasce num contexto de crise e separação dos pais, e de depressão e doença da mãe (que não desempenha seu papel de mãe, mesmo depois de ficar boa e sair do hospital).

O herói é geralmente separado do convívio materno, de sua mãe biológica.

Leila é separada de sua mãe aos sete meses de idade.

As vezes ocorre o fenômeno da “dupla mãe”, o herói quase sempre tem uma mãe biológica e uma mãe que o cria.

Leila aos três anos ganha uma nova mãe, na madrasta. E como sua mãe biológica não morreu, passa a ter duas mães, a que a pariu e a que a criou.

A mãe biológica deu nascimento ao corpo de Leila. A mãe adotiva propicia o nascimento da heroína Leila, pois pelo fato desta mãe já ser um feminino transgressor facilitou a ativação do arquétipo do herói.

Na adolescência o futuro herói acaba descobrindo sua origem. Retorna a sua tribo ou a seu reino.

Leila descobre sua verdadeira mãe, através de uma tia mais velha (lembrando a velha sábia) e vai procurá-la.

Leila aos quinze anos sai em busca de si mesma. Tem uma energia forte que a impulsiona para se individuar. Se diferencia de duas mães. E nesse momento começa a trabalhar e a ser independente.

O herói quase sempre rompe com o pai.Leila, aos quinze anos, descobre a verdade sobre sua maternidade e sai da casa paterna. Nesse momento de diferenciação do pai, em que se ultrapassa o arquétipo do pai para se buscar os próprios valores, Leila, cujo pai era um transgressor da consciência coletiva, realiza a “transgressão da transgressão”.

A etapa das aventuras sempre ocorre em algo que simboliza o inconsciente: uma floresta, uma caverna, o mar, etc. O herói, neste momento, parte para um encontro consigo mesmo, um mergulho da libido dentro de si mesmo.

Leila mergulhava no mar como quem mergulha nas profundezas do seu ser.

Neste período que se afasta da casa paterna vai fazer análise, realizando um mergulho, uma busca de si mesma. Enfrentando sua sombra, subjugando e assimilando sua sombra , e dela retirando sua força. “ Tem-se que brigar com o passado, ou melhor, estudá-lo. Arrancar de dentro da gente as raízes burguesas e mesquinhas, as tradições, o comodismo e a proteção...( texto do diário de Leila)

O herói passa por ritos iniciáticos, ritos de passagem, como a penetração em um labirinto, passagem pelo fogo, mergulho ritual no mar.

Leila mergulhava ritualisticamente no mar, mesmo quando este estava violento. Ela mesma se impunha esta prova, este desafio. Além dos desafios sociais na área da sexualidade, maternidade e na sua linguagem.

A criança, o futuro herói, já vem ao mundo com duas “virtudes” inerentes a sua condição e natureza: a timé (honorabilidade pessoal) e a areté (excelência, superioridade em relação aos outros mortais). A areté leva-o facilmente a transgredir os limites impostos pelo métron .

Leila transgrediu a moral vigente na época. Aos dezessete anos ela iniciou a afirmação de sua individualidade, enfrentando a ordem vigente e trazendo novos valores. Foi transgressora de um feminino oprimido. “Não sei se foi loucura ou coragem minha, mas sempre me expus muito. De certa forma, acho que é isso que ainda sustenta essa coisa engraçada chamada mito.” (texto do diário de Leila).

O herói traz de volta (ou devolve) à consciência os tesouros do inconsciente, os valores inconscientes que fora buscar, afim de que todos possam usufruir das energias e dos benefícios outorgados pelas suas façanhas. Você é herói ou heroina à medida em que emprenda a grande viagem interior, resgatando através da katábasis os conteúdos inconscientes que anunciam uma nova era, promovendo uma passagem de nivel da consciência coletiva. O herói, assim, ajuda e outorga dádivas inesquecíveis a seus irmãos.

O tesouro que Leila traz é a liberação do feminino. Ela resgata o feminino oprimido, transgredindo a moral vigente à época e preconizando uma nova era para as mulheres, com sua atitude de vanguarda, implantando novos padrões de mulher, transformações dos papéis femininos na sociedade brasileira, no domínio da sexualidade, conjugalidade e maternidade. “Soltou as mulheres de vinte anos presas no tronco de uma especial escravidão” (Drummond de Andrade).

O herói é perseguido por uns deuses e ajudado por outros.

Leila foi perseguida pela autoridade da época , quase foi presa, não permitiram mais que sua imagem aparecesse, nem que ela dessa entrevistas. Mas foi amada por milhares de pessoas.

O herói acumula atributos contraditórios.

Leila era paradoxal. Tinha uma personalidade contraditória: revolucionária e sensual, corajosa e feminina, guerreira e sexy, crítica e alegre, questionadora e terna, combativa e suave, audaciosa e cativante, inovadora e doce.

O casamento do herói com a princesa, ou da heroína com o príncipe simboliza a união dos opostos, quando ocorre a integração da anima pelo homem e do animus pela mulher; é a conjunção entre o aspecto feminino da alma e do masculino do espírito . Ë o que se conhece como -hieros gamo- o casamento sagrado. Quando , ao invés de projetar num terceiro elemento,essa energia fica ampliada e disponível para a auto-realização individual.

Leila, me parece, que em si mesma realizou o hieros gamo . Ela constituiu em si uma totalidade : o Feminino- mãe, carinhosa, nutridora, sensual ,doce - e o Masculino - transgressora, guerreira, responsável, trabalhadora, independente, heróica.

Ela viveu a plenitude do seu ser.

Após tantas lutas, o fim do herói é comumente trágico. A grande glória lhe será reservada post-mortem. Os heróis se distinguem dos seres humanos pelo fato de continuarem a agir depois da morte.

Leila morre, desaparece em um desastre de avião, longe de sua terra natal. Uma morte trágica e precoce aos vinte e sete anos. E ao mesmo tempo mágica. Explode no ar. E assim como Calisto, Órion e Quíron, se transforma em estrela, em constelação. E como todos os heróis, presta serviços em vida e post-mortem. Continua a agir depois da morte. Pois basta ver as grávidas na praia, de barriga de fora, as moças podendo exercer sua sexualidade sem repressão para se sentir que Leila permaneceu, que deixou seu tesouro para a coletividade.

LIGIA DINIZ

Psicóloga-CRP 1900-RJ

Arteterapeuta

Bacharel em Artes Cênicas

Pós- graduada em Psicologia Junguiana

Facilitadora de Biodança

Referências:

Brandão, Junito de Souza. Mitologia Grega vol. III, Petrópolis, Ed. Vozes 1987.

Campbell, Joseph. O Poder do Mito, São Paulo, Ed. Palas Athena 1990.

Campbell, Joseph. O Herói de Mil Faces, São Paulo, Ed. Cultrix 1990.

Henderson, Joseph. “Os Mitos Antigos e o Homem Moderno”, in: Jung et allii, O Homem e Seus Símbolos. Rio de janeiro, Ed. Nova Fronteira 1964.

 

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