A GNOSE ATRAVÉS DA ARTE
REVISTA IMAGENS DA TRANSFORMAÇÃO
Nº. 5 - VOL. 5 – 1998.



RESUMO:

Êste artigo apresenta uma técnica terapêutica baseada na confluência de aspectos de Biodança, Arte-terapia e Teatro, empregada com sucesso na busca do auto-conhecimento e evolução daqueles que a experimentam.

ABSTRACT:

This paper presents a new therapeutic method based on aspects of Biodance, Art Therapy and Theatrical Art. The method has been successfully employed by people seeking for self-knowledge and psychological evolution.

“A criação de algo novo não é realizado pelo intelecto, mas pelo instinto de diversão que age a partir da necessidade interior. A mente criativa brinca com os objetos que ama.”

C. G. Jung

Desde tempos imemoriais constata-se que as artes, os mitos, as religiões e a literatura sempre expressaram as mais profundas experiências humanas. Trilhar estes caminhos pode levar o ser humano, através do seu auto-conhecimento a vivenciar o numinoso, o espaço do sagrado, do transcendente.

Neste trabalho farei um relato de minha experiência psicoterapêutica obtida através da integração de artes e técnicas psicológicas. Mostrarei como pode ser útil a associação entre a Biodança, a arte plástica e a arte cênica para facilitar e conduzir as pessoas no caminho do auto-conhecimento. Não se trata aqui de produzir arte pela arte, ou mesmo de buscar a estética através da arte. Trata-se de utilizar a integração de técnicas e artes para buscar a via da gnose.

A Gnose é a busca da nossa verdadeira origem, de quem somos de fato, a despeito de todas as máscaras ou personas que o coletivo nos imponha. A Gnose é a busca do Si-mesmo. Não é só a soma de nossos personagens, é um todo integral muito mais consistente. A Gnose é a busca do divino dentro de nós.

A Biodança é um sistema de integração afetiva, renovação orgânica e reaprendizagem das funções originárias da vida que visa ao desenvolvimento das potencialidades humanas, integra corpo e mente e harmoniza o indivíduo como um todo. Criada pelo antropólogo Rolando Toro em 1964 e introduzida no Brasil em 1976, é uma técnica não verbal baseada em vivências induzidas pela música, dança e exercícios de comunicação em grupo. A Biodança compõe-se de cinco linhas de vivências básicas, vinculadas à vitalidade (auto-regulação), sexualidade (prazer), criatividade (expressão), afetividade (amor) e transcendência (impulso de fusão com a totalidade cósmica) [1,2].

A Arte-terapia [3], embora originada de uma atividade milenar, é de aparecimento recente como instrumento de terapia. Data de aproximadamente 50 anos e não há ainda um campo unificado de conceituação, a respeito de sua ação terapêutica. O termo “arte-terapia” inclui [4] “qualquer tratamento psicoterapêutico que utiliza como mediação a expressão artística - dança, música, teatro, representação plástica : pintura, desenho, gravura, modelagem, máscaras, marionetes…”

A arte é um instrumento essencial para o desenvolvimento humano, daí seu efeito terapêutico. Ao atribuir funções terapêuticas à arte, deixa-se de privilegiar aspectos estéticos. O que importa é auxiliar os indivíduos a lidar melhor com seus conteúdos internos, estabelecer seu equilíbrio emocional, encontrar sua própria linguagem expressiva e exorcizar seus “demônios” (imagens e criações associadas a situações conflitivas ou traumáticas). Estas imagens se despotencializarão ao serem concretizadas em produções artísticas. Segundo o genial renascentista Leonardo da Vinci “é necessário desenhar os monstros para podê-los dominar”.

A utilização de materiais variados facilita a entrada em contato com conteudos inconcientes e experiências ainda da fase pré-verbal ou mesmo mais primitivas ou coletivas, de modo a permitir a elaboração, mesmo que o acesso se dê a nível do verbal.

A arte-terapia, no sentido mais comum, é comprendida apenas como o uso terapêutico das artes plásticas; neste trabalho, vamos entendê-la como o conjunto das técnicas artísticas que possam facilitar o auto-conhecimento, integrando as artes cênicas; a teatro-terapia será enfatizada por ser foco de minha experiência bem sucedida e também por haver sido pouco abordada no processo arte-terapêutico.

O uso do teatro no trabalho terapêutico possibilita que o sujeito se observe a si mesmo em ação, em atividade [5]. O autoconhecimento assim adquirido permite-lhe ser aquele que observa e aquele que age. O teatro na psicoterapia pode ser usado de três formas: a) o protagonista-cliente vai adquirir conhecimento sobre si mesmo revivendo uma emoção, tornando-se consciente de sua emoção e sua ação, transformando esta energia (ab-reação). Segundo Boal “o eu agora percebe o eu antes e prenuncia um eu possivel , um eu futuro ”; b) aqui o cliente é o diretor teatral: dirige os companheiros de grupo encenando cenas conflituosas de sua vida, assistindo e podendo transformá-las segundo seu desejo; c) o ator-cliente viverá personagens desconhecidos dele mesmo, tomando consciência de suas possibilidades, de seus conteúdos, ou seja, dos inúmeros personagens que povoam seu inconsciente, trazendo-os à cena quando necessário, sem reprimi-los e sem deixar-se possuir por eles. Seus personagens vêm a tona de uma forma prazerosa e artística, num movimento de dentro para fora.

Utilizo a Biodança para integrar o grupo, para criar um ambiente protetor, de intimidade, onde as vivências possam acontecer. Acredito que as imagens arquetípicas sejam ativadas neste processo e que possamos acessar o inconsciente, pessoal e o coletivo, com algum êxito. Em linguagem figurada, “abrimos os canais” desta forma. A Biodança, dependendo da música e do movimento selecionado vai facilitar o aparecimento de determinadas emoções potencializando o afloramento de complexos e suas figuras arquetípicas correspondentes. Na prática, por exemplo, músicas mais sensuais associadas a movimentos pélvicos facilitará o afloramento do potencial de sedução, de erotismo, da nossa “Afrodite”. Naturalmente, para ativar nosso lado guerreiro, utilizaremos músicas mais fortes, com vitalidade e movimentos ativos, mais “Yang”. Como outro exemplo, músicas mais intimistas associadas a ações de proteção, de colo, potencializam o contato com a nossa criança, propiciando um estado mais regressivo, mais “Yin”.

A Biodança produz estados de semi-transe durante os quais pode-se suspender temporariamente nosso censor interno, permitindo assim a liberação das emoções e vivências. As imagens que surgem, nestes estados, através de desenho, pintura, modelagem ou colagem, estarão mais despojadas de crítica e menos susceptiveis a bloqueios. Desta forma, conteúdos inconscientes afloram ao consciente; não só os conflitos vão se desfazendo, como nossas riquezas internas desconhecidas começam a aparecer, bem como nossos outros “eus”. Rituais de teatralização são então utilizados para dar corpo a estes novos personagens; o personagem que precisar ser mais enfatizado poderá ganhar roupagens e atuações mais completas para que possa ser vivenciado em toda a sua extensão. Assim, dançando, representando plasticamente, representando teatralmente seus personagens, o indivíduo pode assimilá-los naturalmente, visceralmente, emocionalmente, em um movimento de dentro para fora.

Ë importante não identificar o personagem com o ator, ou seja, desidentificar o ego das figuras do inconsciente, sejam elas tenebrosas ou prazerosas. Então, ritualisticamente, vai se tirando as roupagens, as máscaras, vai se tirando o personagem e vai se voltando ao nosso eu, agora com a consciência e o conhecimento de que não somos apenas o nosso ego (eu) mas todos os outros eus inconscientes que existem dentro de nós. As vivências podem surgir de forma não diretiva ou podem ser induzidas através da apresentação de um mito que se relacione com os conteúdos inconscientes que estão sendo trabalhados.

O verbal tem sido em nossa sociedade extremamente privilegiado, como se detivesse primazia sobre as demais formas de expressão. Existem muitas outras formas de expressão que, se associadas ao verbal, levarão o sujeito a exprimir com muito mais propriedade seus sentimentos e formas de estar no mundo, o que, na certa, repercutirá no seu bem estar. A arte-terapia possibilita ao sujeito esse contato com outras formas de expressão.

A capacidade de criar está intimamente ligada a espontaneidade, ao deixar fluir coisas das quais nem se tem consciência. A crítica exacerbada não permite simplesmente tentar, assim como o medo do desconhecido faz com que o sujeito se confine num mínimo território conhecido e reduza suas possibilidades de expansão. Permitir-se experimentar o novo é condição fundamental para se entrar em contato com suas potencialidades; permitir-se trazer a tona coisas desconhecidas, mesmo incômodas, faz parte do processo arte-terapêutico de se conhecer e crescer.

Os métodos tradicionais de psicoterapia, essencialmente verbais, propõem que a conscientização dos conflitos tenha um importante valoterapêutico. Hoje sabemos que isto não é efetivo. Existem milhares de pessoas que conhecem com perfeição a origem de suas angústias e a dinâmica de seus conflitos, mas todavia, são incapazes de superar na prática seus estados patológicos. Isto porque as terapias cognitivas trabalham a nivel verbal com significados, baseiam sua ação na vertente que vai desde o córtex à região límbica e hipotalâmica, ou seja, desde os significados às vivências. A arte e a Biodança trabalham a partir das vivências; ao contrário das terapias cognitivas, o sentido vai das vivências aos significados, trabalhando assim com os três níveis de aprendizado: cognitivo, vivencial e visceral. Daí sua efetividade terapêutica, produzindo na prática mudanças emocionais, neurovegetativas e endócrinas.

As terapias tradicionais, verbais, não promovem as verdadeiras transformações, pois só conhecer não é suficiente. Vivenciados através da arte e da Biodança, os conteúdos do inconsciente vêm à tona e se integram ao eu. É só quando o movimento vem de dentro para fora que poderemos estar diante de uma real transformação. Desta forma, o paciente é levado a recuperar a sua intuição e potencialidade artística, é auxiliado a mergulhar no seu próprio inconsciente para dele retirar a matéria prima de seu auto-conhecimento.

As pessoas passam a se conhecer melhor durante a vivência dessas técnicas. O contato com as figuras a princípio assustadoras do inconciente leva a um exorcismo daquele potencial ameaçador que está nas trevas, trazendo-o à luz do consciente e ampliando sua dimensão humana.

Desta forma a pessoa enriquece seu ego com conteúdos que de outra maneira ficariam perdidos, continuariam a ser fantasmas assustadores; é o ego a única instância capaz de testemunhar os dramas que se passam nas camadas mais profundas da mente. Traz-se à consciência não só conflitos, mas riquezas, possibilidades, uma infinidade de personagens que temos dentro de nós. A possibilidade de reconhecer seus personagens, de poder atuar de várias formas sem se identificar com nenhuma em especial, é parte importante desta técnica terapêutica. Ë preciso integrar essas imagens, integrar seu eu fora com seu eu dentro; negociar esse coletivo dentro e fora.

A Gnose intelectual não atinge sua totalidade, não basta conhecer, é preciso ser. A Gnose pela arte incorpora a ação que em si a arte propõe, um auto-conhecimento, buscando uma auto-transformação que leve a uma auto-transcendência. De tal sorte que a pessoa, verticalizando-se, possa atingir oitavas superiores de si mesma.

Ligia Diniz,

Psicóloga CRP 02583583-6 / RJ, Bacharel em Artes Cênicas, Arteterapeuta, Facilitadora de Biodança, Analista Transacional

Referências

•  Toro, Rolando - Coletânea de Textos, editora ALAB, volumes I e II, (1991).

•  Diniz, Lígia – Biodança em Família, monografia para Titulação em Biodança, 1994.

•  Philippini, Angela – Apostila de Arteterapia, 1989.

•  Païn, Sara e Jarreau, Gladys – Teoria e técnica da arte-terapia, editora Artes Médicas Sul Ltda. 1994.

•  Boal, Augusto – O arco-íris do desejo: o método Boal de teatro e terapia, editora Civilização Brasileira 1996.

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